O CAPELÃO DO DIABO

A teoria da evolução das espécies é, possivelmente, a mais importante e radical descoberta científica de todos os tempos. Com ela, em pleno século XIX, Charles Darwin mudou a compreensão da humanidade sobre o mundo como nunca uma só pessoa o havia feito. As comemorações que assinalam os 200 anos do nascimento do maior dos biólogos são, por isso, mais que merecidas, muito importantes em um mundo ainda marcado por crendices e  superstições; ou, o que é apenas outra forma de dizer o mesmo: pelo desapego às ciências. Por tudo aquilo que Darwin realizou, nossas crianças deveriam desde muito cedo aprender a admirá-lo, tomando-o como um modelo de virtude e excelência. Na esteira deste processo, valorizaríamos as ciências, estimulando o ceticismo próprio dos que se importam com a verdade e que perguntam sempre e exigem provas e, por isso, não são enganados nem se prestam ao papel de “abobados da enchente”.

Há muitas biografias e trabalhos interessantes sobre a vida e a obra de Darwin. Poucos, entretanto, como o monumental estudo de Adrian Desmond e James Moore, “Darwin, a vida de um evolucionista atormentado” (Geração editorial, 796 pág.), cuja epígrafe separa a exclamação de Darwin:  “Que livro não escreveria um capelão do diabo sobre o trabalho desajeitado, desatinado, vil e horrivelmente cruel da natureza”. A obra reconstitui as aflições vividas por Darwin que atrasou por 20 anos a publicação de seu “A Origem das Espécies”, receando as inevitáveis repercussões de suas descobertas. Em uma oportunidade, disse a um amigo que publicar seu livro era o mesmo que “confessar um crime”. A frase representa bem o clima cultural de uma Inglaterra vitoriana onde qualquer afirmação que contrariasse as “Escrituras” era tida como um grave delito.

Darwin foi ridicularizado, desprezado e vilipendiado por muitos dos seus contemporâneos. Mesmo depois do amplo reconhecimento da comunidade científica e das avassaladoras provas que só confirmaram suas posições, Darwin segue incompreendido. As crenças religiosas e o dogmatismo que as caracterizam respondem, em primeiro lugar, por este processo irracional. A depender delas, seguiríamos vivendo em um mundo de sombras e demônios; as conchas encontradas por Darwin nos Andes estariam lá por conta do dilúvio e os seres humanos seguiriam se imaginando o resultado mais acabado de um projeto divino e não, como o sabemos, um ramo da evolução da vida no planeta ao longo de bilhões de anos (neste particular, assinale-se, é preciso estar atento para o absurdo ensino do “criacionismo” em escolas e universidades; opção alimentada por políticos oportunistas e que traduz a oferta conjunta mais radical de ignorância e farsa de que se tem notícia).

Por isso, penso que Darwin é mais “subversivo” do que Marx e Freud – dois outros gigantes de nossa espécie. Todos eles, cada um a seu modo, contribuíram para que soubéssemos mais a respeito de nossos próprios limites, sobre aquilo que nos condiciona concretamente. Mas Darwin fez algo mais: nos deu uma noção de pertencimento ao mundo que contrariou tudo o que quase todos sempre tiveram como verdadeiro pela religião. Neste sentido, sua obra é profundamente libertadora. Esta é, também, a razão pela qual os profissionais do ilusionismo –mesmo que constrangidos ou reticentes – podem até flertar com Marx ou Freud, mas nunca se aproximarão de Darwin.

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