O cinismo e suas bandeiras

Há momentos em que os políticos condensam suas visões de mundo e estratégias em frases inadvertidas. São declarações reveladoras que, por descuido ou despreparo, se libertam dos diques discursivos, revelando sordidez. Lembram do áudio da Lava Jato, com diálogo de março de 2016, com o atual líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RO)? Ele foi gravado pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e sintetizou a racionalidade que passava a imperar no Poder. Referindo-se à Lava Jato, Jucá afirmou: -“Tem que mudar o governo (de Dilma) pra poder estancar essa sangria”. No diálogo que se seguiu, eles concluem que a solução mais fácil seria “botar o Michel num grande acordo nacional”, “com o Supremo, com tudo”. Daí, “parava tudo, delimitava onde está, pronto”. Claríssimo. Com esse objetivo, “botaram o Michel”. O resto é conversa para entreter a galera. Jucá foi líder do governo Dilma no Senado. Antes, havia sido ministro da Previdência Social no governo Lula e ocupado posições de destaque nos governos Sarney, Collor e Fernando Henrique. Estamos, enfim, diante de um político “muito capaz”, entenda-se: capaz de tudo.

Pois bem, na terça-feira (6), o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, palestrou em evento da Associação Brasileira da Atividade de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), expondo opiniões sobre Segurança Pública. Na oportunidade, disse textualmente que “o País, nos últimos anos, fez uma opção pelo combate à corrupção, no lugar de combater bandidos, essa é a realidade” (assista em: https://goo.gl/wcy8uU). Segundo a “análise” do ministro, as fações criminais ligadas ao tráfico de drogas se impuseram, porque o Brasil resolveu prender políticos corruptos. Sabe-se, assim, que, para o ilustre escudeiro de Eduardo Cunha e Michel Temer, a palavra “bandido” não se aplica a corruptos. Mais claro que isso, nem desenhando. O ministro sentiu-se à vontade para esboçar essa mirabolante conclusão, porque ela reflete um determinado senso comum que transita com naturalidade nos ambientes políticos brasileiros e não só na direita. O fez, também, porque, politicamente, a agenda do governo segue orientada pelo objetivo de “interromper a sangria” da Lava Jato e costurar o que deverá ser um amplo acordo pós-Temer. Nesse projeto, anotem, golpistas e golpeados confraternizarão no STF sob a liderança de Gilmar, o destemido.

A relativização da corrupção já tem também o seu ideólogo. Ele se chama Jessé Souza, autor de “A Elite do Atraso” (Leya, 2017, 239 pág.). Para ele, o conceito de patrimonialismo, empregado por Sérgio Buarque de Holanda (proposto originalmente por Weber), seria “o mais influente e o mais fajuto de todo o pensamento social brasileiro”. Essa contribuição teria, posteriormente, servido a Raymundo Faoro e a todos os pensadores de prestígio desde então (Fernando Henrique, Roberto DaMatta, etc), cada qual mergulhado em erro vil e a serviço do capital (sim, os que pensam diferente de Jessé são, “objetivamente”, serviçais da burguesia). Autoproclamado o único pensador a ter compreendido o Brasil, Jessé sustenta que identificar a presença histórica de uma elite de ladrões no Estado, teria tornado invisível a “verdadeira elite de rapina que se encontra no mercado”. O raciocínio é primário. Os negócios fechados pelas grandes corporações, os lucros extraordinários obtidos pelos donos do capital, o rentismo alimentado pela política de juros, constituiriam tudo o que realmente importa. A dívida pública, repete Jessé, é a “verdadeira corrupção”. A corrupção havida na Petrobrás, no BNDES, e em tantos outros ramos do Estado seria, por consequência, uma corrupção falsa, devemos concluir? Sim, evidentemente, já que aquilo que ouvimos e assistimos a respeito da corrupção política no Brasil seria uma “armação midiática”, com a Globo à frente, para atender os interesses do…(adivinhem)….“imperialismo norteamericano”. Original, não? (aviso, porque não há como pedir o dinheiro do livro de volta).

Penso, pelo contrário – com o consolo de estar em melhor companhia sociológica – que não se compreenderá a afirmação do rentismo no Brasil e a promoção do capitalismo parasitário que herdamos sem destacar a dinâmica de corrupção das elites políticas brasileiras, a mesma dinâmica que, de tão pujante, engolfou parte expressiva da esquerda, desmoralizando-a. O patrimonialismo é, nesse particular, um conceito que ajuda muito a situar o modus operandi dos “Donos do Poder”, sem o que os interesses bilionários das grandes corporações não se reproduziriam em cada Medida Provisória, em cada Refis, em cada licitação arranjada, em cada benefício fiscal e em tantas emendas parlamentares. Ignorar esse fenômeno, reduzir sua importância ou relativizá-lo é apenas mais uma lamentável contribuição que se oferece à social-confusão, ao descritério moral expresso na tradição do “rouba mas faz” e ao infinito cinismo com o qual alguns passaram a tecer suas bandeiras.

 

Marcos Rolim – Sul 21.

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