O DESAFIO DO ENCONTRO

Há cerca de dois anos, fui convidado para um painel, em Porto Alegre, que debateu questões atinentes à cidadania e à saúde mental. Um dos painelistas com quem pude dividir a mesa era o psicólogo argentino Alfredo Moffat. Em sua intervenção, ele contou uma experiência que havia tido logo no início de suas atividades profissionais. Recém formado, Moffat e uma equipe da área PSI foram convidados a assumir a direção de uma clínica psiquiátrica em Buenos Aires. Aceito o desafio, descobriram que a clínica abrigava um grupo de pacientes gravemente comprometidos; na verdade, loucos cronificados pelo longo período de internação. Todos eles, ademais, eram idosos e viviam em uma alienação quase que absoluta; a maioria em uma situação de mortificação, sentados ou deitados durante todo o dia, o olhar perdido no horizonte, sem que manifestassem qualquer reação, sem que se valessem mais da fala, alimentados com “papinhas” que lhes eram empurradas goela a baixo a cada refeição. O primeiro problema a ser resolvido, então, era como abordar aquelas pessoas, como iniciar um tratamento sem se valer do uso da palavra, etc.. A equipe, depois de muita discussão, resolve adotar como estratégia a de estimular os sentidos dos pacientes na tentativa de mobilizá-los em torno de desejos básicos. Escolhem, primeiramente, o ato de comer e resolvem oferecer uma refeição especial. Com base na origem da clientela e de sua cultura – velhos vindos da zona rural – decidem-se por um churrasco. E o fazem com lingüiça por entenderem que era o tipo de carne que mais poderia despertar o olfato e o apetite. Já na primeira vez, alguns dos pacientes se aproximam do assado. Depois de algumas tentativas, os idosos já aceitam um pedaço da carne e a levam à boca. Transcorrido um tempo, a equipe introduz som ambiental e o tipo de música – de novo levando em consideração a origem dos pacientes – vem do folclore argentino. Nesta etapa, muitos pacientes ainda continuavam deitados ou sentados, o olhar continuava perdido no horizonte, mas já se notava os movimentos ritmados com os pés. E assim foram fazendo, lentamente, até que se criassem as condições para que se perguntasse a cada um o seu nome e houvesse uma resposta e se perguntasse de onde vinham e houvesse uma lembrança.

Neste tipo de abordagem, o que se produz é um encontro. Recupera-se o desejo e, por decorrência, a opção pela vida para que o próprio tratamento seja possível. Uma abordagem do tipo pressupõe, além de uma técnica apurada, um grande investimento afetivo. Não se trata de diagnosticar e prescrever, mas de entender uma história subjetiva e reconhecer aquele sujeito como um fenômeno único; vale dizer: irredutível à qualquer tipologia clínica. É precisamente este encontro aquilo que não se produz nas “instituições totais”. Manicômios, presídios, asilos, internatos e similares são, antes de tudo, espaços para um eterno desencontro. Lugares onde o outro é sempre uma ameaça, onde os regramentos propõe tão somente a submissão e a despersonalização. Em síntese, formas muito caras de se fazer as pessoas piores.

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