“Witzel e Rodrigo Amorim em uma das cenas mais lamentáveis da última campanha”.

O Estado apodrecido

O jornalista Allan de Abreu, da revista Piauí, produziu uma matéria sobre as investigações do assassinato de Marielle Franco – “A Metástase” – que permite compreender as razões pelas quais as investigações patinaram durante quase um ano, até a prisão, essa semana, do sargento PM aposentado Ronnie Lessa e do ex-PM Élcio Vieira de Queiroz. O texto é arrasador para as polícias do Rio, envolvidas até a medula pela corrupção e pela violência, mas revela novas dimensões daquilo que poderíamos denominar, sem qualquer recurso retórico, de “apodrecimento do Estado brasileiro”.

Sabe-se que os assassinos de Marielle são profissionais do crime, especialistas em execuções por encomenda e com uma longa trajetória de banditismo. Eles são, provavelmente, ligados ao “Escritório do Crime”, uma quadrilha que cobra por assassinatos entre 200 mil a um milhão de reais, a depender do perfil das vítimas. Dois dos supostos líderes dessa quadrilha são o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira e o ex-capitão da PM Adriano Magalhães de Nóbrega, atualmente foragido.  O major, que vai a júri em abril por outro delito, esteve no local do assassinato de Marielle pouco antes dele ocorrer, como ficou comprovado pelo rastreamento do seu celular; já Magalhães foi membro do BOPE, onde se tornou conhecido pela precisão com as armas e pela crueldade com que comandava os treinamentos, batendo com barras de ferro nos alunos. Ambos homenageados pelo então deputado Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do RJ; que também empregou, até novembro do ano passado, a mãe e a esposa de Magalhães em seu gabinete.

Os que mataram Marielle acompanharam sua agenda por três meses, definiram o uso das armas e das munições, inclusive com a opção por silenciador, usaram toucas ninja e “segunda pele” para esconder tatuagens e escolheram o trajeto que seria feito até os disparos, de forma a não deixar rastros. No percurso feito pelo carro dos assassinos, havia 11 câmeras de vídeo. Cinco delas foram desligadas na véspera do crime. Uma delas, que poderia ter flagrado o momento dos disparos, não grava imagens, apenas conta os carros. O crime não tem nada a ver com alguém “motivado pelo ódio contra a esquerda”, como se passou a aventar agora, mas tudo a ver com a frieza e o cálculo dos sicários.

A Delegacia de Homicídios encarregada das investigações do caso Marielle possui, segundo a matéria, 10 delegados, 22 peritos, 206 agentes e 48 viaturas. Essa estrutura esclarece dois homicídios em cada dez ocorridos na cidade (20%), o dobro da média das delegacias do interior (diferentemente do que ocorre no RS onde a Polícia Civil considera “esclarecido” o homicídio com indiciamento, o dado usado aqui toma o conceito de esclarecimento a partir da denúncia do Ministério Público, como se faz em quase todo o mundo). Após o assassinato de Marielle, PMs chegaram rapidamente à cena do crime, mas não procuraram testemunhas. Quem fez isso, uma semana depois, foi a jornalista Vera Araújo, do jornal O Globo, encontrando duas pessoas que ofereceram informações fundamentais.

No meio das investigações, a Polícia Civil seguiu uma trilha falsa que incriminava o vereador Marcello Siciliano e o ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo, que já estava preso, acusado de comandar milícia em Curicica, na Zona Oeste. A versão foi inicialmente apresentada ao repórter Antônio Werneck de O Globo por três delegados federais que traziam o testemunho de um sargento da PM. A matéria da Piauí indica, entretanto, que os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão é que teriam patrocinado essa linha diversionista. O primeiro foi vereador e deputado, acumulando processos criminais e patrimônio. Por razões que só o diabo sabe, ele foi indicado pela Assembleia Legislativa do RJ para ser conselheiro do Tribunal de Contas, onde ficou até ser preso pela Lava Jato, com mais quatro conselheiros acusados de corrupção, em março de 2017. Segundo a matéria, a dupla procurou retirar o vereador do caminho, para facilitar as pretensões eleitorais de Chiquinho que disputaria a mesma base nas eleições para deputado federal em outubro de 2018.  Após a repercussão da denúncia que o implicava, Siciliano, que também tem relações com as milícias, desistiu de concorrer, o que assegurou a eleição de Chiquinho.

O suspeito de ter sido autor dos disparos que matou Marielle, sargento reformado, com vencimentos de pouco mais de 7 mil reais (que só chegaram a esse valor por conta da “gratificação faroeste”, uma espécie de bonificação paga pelo ex-governador Marcello Alencar aos policiais que foram estimulados a matar), foi preso em sua casa na orla, com cinco suítes, no mesmo condomínio luxuoso onde mora o senhor presidente da República. Uma casa ali pode valer 4 milhões. Na garagem do suspeito, se encontrou um carro importado blindado, avaliado em 120 mil reais, com 124 multas. Esse cidadão armazenava na casa de um amigo 117 fuzis da plataforma M16 avaliados em 3,5 milhões e sua filha foi namorada do filho mais jovem de Bolsonaro.  Se fosse um filme, pareceria inverossímil.

De tudo isso, deve-se perguntar: o que fazem as centenas de pessoas envolvidas com a segurança do presidente que nunca desconfiaram do perigoso vizinho de Bolsonaro? Há décadas, as polícias do RJ realizam missões em favelas à procura de armamentos, produzindo cadáveres de suspeitos e de policiais e transformando a vida na periferia em um inferno de sofrimentos e medos. Nunca encontraram um arsenal que tivesse sequer semelhança a esse. Há décadas, o discurso dos governantes – e da turma que se dedica a pedir pena de morte e que comemora a morte de suspeitos pobres- aponta para as periferias onde estariam os “bandidos”, os “vagabundos”, os “meliantes” que deveriam ser abatidos sem dó ou piedade. O que esse mesmo discurso afirma agora quando se sabe que “vagabundos corruptos” e “covardes assassinos” podem morar em condomínios de luxo e manter relações, digamos, próximas e de confiança com autoridades, delegados, coronéis e deputados? Quem sabe com outras personalidades ainda mais poderosas, com quem compartilham o mesmo gosto pelas armas, a mesma estupidez e igual ojeriza aos direitos humanos?

O que fizeram os militares que coordenaram a intervenção federal no RJ por um ano, que não tiveram a oportunidade de tocar em um só miliciano? Em um só policial corrupto, em um só matador de aluguel?  O que fez, até agora, o senhor governador eleito, Wilson Witzel, com a promessa de “acabar com a corrupção e com o crime organizado”?

Na base dos problemas mencionados, encontraremos o tema da corrupção. Para todos os efeitos, é como se o Poder Público fosse incapaz de produzir um caminho consistente para afastar os meliantes que o colonizam, não apenas no Parlamento, mas em todos os Poderes e nos partidos que, em sua grande maioria, entregaram suas almas em uma espécie de pacto fáustico com o Poder. Isso sem falar naquelas organizações que nunca possuíram qualquer “alma” e que são apenas agregados de oportunistas à procura de leilões. O Rio talvez seja a vanguarda do processo de degradação moral e política que oferece, ameaçadoramente, um futuro provável ao Brasil. Um futuro onde os governantes e seus políticos, ao invés de combaterem o crime, se divertem quebrando uma placa em homenagem à Marielle e gritando “É Bolsonaro, porra!”, como fizeram os então candidatos Witzel e Rodrigo Amorim em uma das cenas mais lamentáveis da última campanha.

O buraco, entretanto, é muito mais embaixo. A instituição brasileira navega no sentido da proteção aos privilégios e parece ser sempre galvanizada pela garantia da impunidade aos crimes do colarinho branco e pela legitimação da violência contra os mais pobres. Dentro do sistema, aqueles que se movem em sentido contrário, afirmando uma noção verdadeiramente republicana, são pontos fora da curva a serem neutralizados, isolados, desmoralizados e, no limite, eliminados. Eles são, como Marielle, incômodos radicais; pessoas que “não merecem a confiança”; pedras no sapato dos partidos, dos interesses corporativos, dos negócios mais lucrativos, das máfias, da pátria amada e amaldiçoada; pessoas, enfim, que precisam ser intimidadas e caladas.

A matéria da Piauí encerra com uma observação de uma das suas fontes que sintetiza: “O crime se espalhou pelo Poder constituído do Rio. Tem bancada. É uma metástase sem controle. O Estado não sai mais dessa situação por suas próprias mãos”. Ao que tudo indica, essa é, de fato, a maior ameaça sobre o Brasil. Ou o País constrói uma alternativa política a ela – reunindo o que resta de saudável e democrático em uma frente contra a corrupção, os privilégios e o rentismo – ou vamos para um desfecho de uma crise ainda mais radical, que potencializará a violência disseminada, o ceticismo da população e os espaços para a demagogia e a aventura.

PS- Escrevi esse texto sob o impacto das notícias sobre o massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. O evento merece uma profunda discussão para a qual pretendo contribuir, oportunamente.  Seja como for, o massacre parece simbolizar os tempos que vivemos, seja pela tristeza que evoca, seja pela impotência que sentimos.

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