O Homem que Amava os Cachorros

Há livros que sabemos excepcionais por sua qualidade literária; há outros que nos emocionam ou que apreciamos porque nos contam histórias significativas ou envolventes ou, ainda, porque aprendemos algo com eles e nos tornamos mais humanos. “O Homem que Amava os Cachorros” (Boitempo, 590 pág.), o último trabalho do escritor cubano Leonardo Padura, é um tanto de tudo isso. De um lado, temos uma vigorosa pesquisa sobre o caminho percorrido por Liev Davidovich Bronstein – codinome Leon Trotsky – desde seu banimento da URSS até seu assassinato em Coyoacán, no México, em 20 de agosto de 1940. De outro, a configuração do militante comunista espanhol Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández , agente de elite do “Comissariado do Povo Para Assuntos Internos” (NKVD) da URSS, encarregado por Stálin de matar Trotsky. Ramon Mercader foi uma síntese do fanatismo ideológico e da ausência de princípios. Após cumprir 20 anos de prisão no México, recebeu em Moscou a comenda de “Herói da União Soviética”. Viveu em Cuba até sua morte, em 1978. Ao que consta, era íntimo de Fidel e Raul Castro. O livro agrega um terceiro personagem, Iván Cardenas Maturell, um cubano típico, que havia já desistido de seu ofício de escritor diante de um regime obcecado pelo controle e pela repressão. É ele quem recebe o relato pelo qual a história de Mercader sairá das trevas. O resultado é surpreendente e instrutivo.

Padura oferece um panorama radical a respeito do stalinismo e seus crimes, além de trazer informações relevantes sobre uma época demarcada por duas guerras mundiais e que mereceu muitas obras importantes nas ciências sociais. Sobre a vida de Trotsky e os crimes de Stálin, a magistral trilogia de Isaac Deutscher (O Profeta Armado, O Profeta Banido, o Profeta Desarmado, Civ. Brasileira, 1.700 pag.) segue sendo uma referência incontornável, mas há textos mais recentes escritos com base em documentos oficiais revelados após o fim da União Soviética como “Trotsky: the eternal revolutionay” (Free Press/Simon & Schuster, 524 pág), do general Dmitri Volkogonov e “Operações Especiais: memórias de uma testemunha indesejada” (Publicações Europa-América, 543 pág), do ex-agente Pavel Sudoplatov. Temos, entretanto, ainda poucos bons romances sobre o stalinismo como “Medo de Espelhos” (Record, 316 pág.), de Tarik Ali. Diferentemente do professor alemão Wladimir Meyer, personagem de Ali, Iván não tem saudades do tempo em que o Socialismo aparecia com uma utopia, nem histórias de militância a contar. Sente-se enganado, apenas, pela promessa de uma vida melhor que nunca chegou e vítima de um regime que exilou os sonhos em balsas clandestinas.

Com o brilho e a integridade de Trotsky (que o fizeram maior que sua doutrina) e com a mesquinharia do aparato político totalitário, o leitor tem o contraste central. A história de Iván, o narrador, de qualquer modo, talvez seja tão importante quanto. Quem ler “O Homem que Amava os Cachorros” haverá de concordar; menos os stalinistas, claro.

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