O Mecanismo e o lugar impossível

AA fé é como uma guilhotina,
tão pesada e tão leve”
F. Kafka

Nelson Rodrigues sustentava a ideia de que um bom filme deve envolver o espectador, a ponto de dissolver seu entorno. Daí a conhecida observação dele sobre o sujeito que bate uma carteira na Cinelândia e se esconde no cinema para fugir da polícia. “Se ele gostar do filme, o filme é bom; se não, o filme é ruim”, dizia. A divertida observação expressa uma visão a respeito do cinema que, por certo, não aglutina consenso entre os amantes da arte. Penso, entretanto, que se o assaltante fosse um evangélico neopentecostal e o filme tivesse uma temática LGBT, não haveria enredo ou recurso cinematográfico capaz de fazê-lo apreciar a obra. Temos tido dificuldades do tipo nas reações à série nacional lançada pela Netflix, “O Mecanismo”, dirigida por José Padilha. A obra foi rechaçada pelo discurso político tradicional, passando a integrar o “Index” da esquerda e da direita. Por esse caminho, uma parte do público não viu a série e não gostou.

Trata-se de uma obra de ficção, de realização cinematográfica envolvente, aos moldes das obras anteriores do diretor como Narcos, Tropa de Elite I e II e Ônibus 174, inspirada em fenômenos reais e em personalidades que seguem polarizando o cotidiano da vida política nacional. O argumento é bem construído, há problemas de qualidade no áudio, mas o enredo mantém a atenção e há cenas antológicas que oferecem sínteses históricas. O desempenho de Selton Mello (como Marco Ruffo), Caroline Abras (Verena Cardoni) e Henrique Díaz (Roberto Ibrahim) é ótimo. Díaz, particularmente, constrói um personagem impressionante, representando o doleiro inspirado em Alberto Youssef. O resultado é um thriller policial que seria muito elogiado não fosse ter se metido na maior encrenca da história recente do País, a Lava Jato e as revelações sobre o envolvimento dos principais partidos políticos brasileiros com a corrupção.

As engrenagens mais comuns da pilantragem que se disfarça de política no Brasil, o papel desempenhado pelas grandes empreiteiras e as dificuldades produzidas pelo sistema contra as investigações aparecem com a devida ênfase e potencial de denúncia. Há, também, uma correta lembrança de que a corrupção não é um monopólio dos “poderosos”, estando, pelo contrário, incrustrada como cultura no cotidiano de muitos brasileiros, inclusive entre os mais pobres. Há, entretanto, temas importantes que foram mal resolvidos. O principal deles é o papel a ser desempenhado pela política. Pelo menos nessa primeira temporada, há um vazio em torno do assunto. As críticas mais contundentes à série não deveriam se concentrar, por isso, no que foi dito, mas no que não foi.

A série não penetrou no mundo político e, por isso, não captou as contradições em seu interior, nem identificou sujeitos que operam a partir de outras lógicas que não a do ‘Mecanismo”. Não se trata de um detalhe, porque esse vazio reforça a ideia de que toda a política é um jogo delituoso e que todos os sujeitos operam em uma mesma direção, maximizando objetivos particulares e não-republicanos. Essa ideia não se sustenta, entretanto, sequer quando examinamos a vida real de políticos desonestos. No caso do PT, especialmente, a série perdeu a chance de tocar a complexidade do fenômeno simbolizado por uma trajetória marcada por importantes virtudes que entra em colapso diante da realidade incontrastável do “Mecanismo”. Para tanto, Padilha precisaria de uma compreensão mais ampla sobre a dimensão trágica da vida. Mais Shakespeare e menos Platão, talvez.

É fato que algumas personagens são tratadas de forma reducionista, o que é marcante para João Higino (Lula), Janete (Dilma), Rigo (Moro) e Mário Garcez Brito, ou “O Mago” (Márcio Thomas Bastos). Os personagens mais complexos e que adquirem densidade nesta primeira temporada são Marco Ruffo (inspirado no policial aposentado Gerson Machado), Verena Cardoni (inspirado na delegada da PF Erika Mialik Marena) e Roberto Ibrahim (Youssef). Penso também que a estratégia mostrada de transferir um preso da Lava Jato para o presídio de “Jaraguara” (na verdade, Piraquara, complexo prisional na região metropolitana de Curitiba) tende a ser recebida pelo público como um recurso legítimo para estimular a delação. O episódio é verdadeiro e envolveu Paulo Roberto Costa, o primeiro diretor da Petrobrás preso. Na série, a delegada da PF é a única a se opor ao método. Há uma ironia nessa passagem se pensarmos que a delegada real esteve à frente da abusiva e trágica prisão do reitor da UFSC algum tempo depois.

Como a personagem João Higino se refere a Lula, aqueles que o glorificam se sentiram ofendidos e os que o demonizam se sentiram insatisfeitos pela posição não central do personagem no “Mecanismo”. O debate seguirá no tom religioso que os verbos glorificar e demonizar pressupõem. Não me refiro à verossimilhança das cenas, bem entendido. Lula nunca afirmou, como João Higino, que “É preciso estancar essa sangria”, frase que, no mundo real, foi dita por Romero Jucá, ex-líder do governo Dilma e um dos articuladores do impeachment, mas não há dúvida de que Lula jogou e segue jogando para desmontar a Lava Jato, operando em articulação com os demais implicados pela “sangria”, incluindo Temer e Aécio que, assinale-se, também não devem ter apreciado a série.

A personagem Janete não se compromete com a estratégia do “estancamento”, o que, tanto quanto se sabe, deve ter sido mesmo a conduta de Dilma. Tal postura é retratada por Padilha como a razão verdadeira das articulações para o impeachment, o que sempre me pareceu o mais plausível no plano da vida real. A propósito, os que se indignaram com Padilha por conta da mencionada frase dita pela personagem deveriam se indignar antes com a ação da pessoa real que, recentemente, declarou em entrevista à Folha de São Paulo que “a Globo tentou dar um golpe em Temer”. Uma frase cujo absurdo adquire pleno sentido quando pensada como mais um elemento da operação “estamos todos no mesmo barco”.

Os acontecimentos retratados pela série são muito recentes e seus desdobramentos seguem em aberto. Além disso, em torno das narrativas em disputa, há investimentos afetivos e políticos que têm alimentado a escalada de ódio, além de uma forma ideológica de ecolalia – distúrbio que faz com que os afetados repitam compulsivamente frases que ouvem – que constrange o raciocínio. A obra ficcional não alinhada politicamente aos termos da polarização em curso situa-se, nesse sentido, em um lugar impossível no Brasil. Também por isso, “O Mecanismo” merece ser visto.

Posts relacionados