O OVO DA SERPENTE

Nós, os humanos, lidamos sempre com uma determinada distância entre o que nos constitui como corpo, ou realidade empírica, e o que nos faz consciência deste ser que somos. Existimos, na verdade, como uma fratura básica; uma realidade não coincidente que promove perguntas a respeito de si mesma. Assim, por exemplo, quando digo: “eu deveria praticar exercícios regulares”, há dois “eus” embutidos nesta frase. O primeiro é aquele que não pratica exercícios regularmente, o segundo é aquele que sabe que deveria alterar seus hábitos, porque possui uma consciência a respeito dos malefícios de uma vida sedentária. Temos esta estranha e fascinante capacidade de interrogarmos a nós próprios, mas, para isso, usando a expressão de Luc Ferry, é preciso que, sejamos dois: o que interroga e o que é interrogado. Normalmente, as alegadas diferenças entre os humanos e as demais espécies animais são arbitrárias. Há quem afirme que nos diferenciamos pela linguagem. Engano. Muitos animais se comunicam entre si e há, seguramente, códigos lingüísticos complexos em algumas outras espécies. Animais possuem sentimentos, sofrem e, pelo menos as espécies mais evoluídas, possuem um tipo rudimentar de raciocínio; vale dizer: de operações mentais pelas quais meios são selecionados para fins desejados. O que as demais espécies conhecidas não alcançaram é a capacidade de se afastar da natureza. Nós o fizemos a partir de uma “natureza-para-nós”, de caráter histórico e, por isso, mutante. Quase tudo o que nos cerca é o resultado de um artifício, de uma criação humana. Então, inventamos nossa natureza e, ainda que estejamos sempre informados – e muito, assinale-se – pela biologia, chegamos ao ponto de poder especular sobre a emergência de uma “pós-humanidade”, resultado das infinitas possibilidades de programar geneticamente nossos corpos ou fundi-los com as promessas da nanotecnologia e da cibernética, entre outras.

Nossa humanidade, de qualquer forma, estará sempre fundada na possibilidade da pensar o nosso pensamento; de refletir. Somos humanos, com efeito, desde que refletimos. Ficamos civilizados, entretanto, muito tempo depois. A partir do momento em que identificamos a violência como um mal e que, subvertendo os imperativos naturais da luta pela sobrevivência, descobrimos os deveres do respeito e da consideração pelos outros, expressos nas regras, nas leis e nos valores morais.

Segunda feira de carnaval eu estava na praia. Caminhando em direção ao mar, não pude deixar de ouvir a conversa de 4 cidadãos, respeitáveis contribuintes, que expressavam sua inconformidade com os catadores que procuravam comida em suas lixeiras, virando-as e sujando as calçadas. Um deles sintetizou o espírito do grupo dizendo: – “a solução é ficar na espreita e dar uma paulada nos dedos do primeiro que vier revirar o lixo, assim eles aprendem!” Eis um bom exemplo de pessoas que vivem em paz consigo mesmas, não é verdade? Nenhuma fratura existencial, nenhuma angústia sobre o mundo, nenhuma distância a percorrer como pensamento. Algo como: “tenho uma lixeira, logo existo”. Minhas dúvidas são: quantos deste tipo existem? E se eles forem maioria?

 

Marcos Rolim – Zero Hora, 03 de março de 2006.

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