Flavio Bolsonaro e Jair Bolsonaro

O poder dos matadores

A Agência Pública trouxe, essa semana, entrevista com o sociólogo José Cláudio Souza Alves, ex-pró-reitor de Extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a respeito das milícias (veja aqui). Ele estuda o fenômeno há 26 anos e é autor do livro “Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense”. Em síntese, sustenta que as milícias não nasceram onde o Estado se ausentou. Pelo contrário, no Rio de Janeiro, as milícias só existem por sua íntima conexão com o Estado. Em determinada medida, por isso mesmo, “as milícias são o Estado”.

Fora do Rio de Janeiro, pouco se sabe sobre as milícias e o fenômeno tem recebido pouca atenção da mídia. José Cláudio situa o surgimento dessas organizações paramilitares ao final dos anos 60, como grupos formados por policiais que agiam como matadores de aluguel. Com a transição para a democracia, as milícias passam a se organizar politicamente, elegendo representantes e aliados para o parlamento, para prefeituras e para o governo do Estado.

Os milicianos são policiais militares, policiais civis, bombeiros, agentes de segurança, na ativa ou aposentados, que controlam territórios do RJ, em dezenas de municípios. Eles assumem o controle das áreas prometendo livrar a região do tráfico. Para tanto, os empresários locais e os moradores são “taxados” de diferentes maneiras. Com o tempo, as milícias foram tomando conta, também, de vários negócios, atuando na venda de água, de terrenos, de cigarros, de bebidas, de gás de cozinha, no transporte ilegal de passageiros, nas instalações clandestinas de TV a cabo, jogos ilegais, entre outros. Quem não concorda com os termos do negócio é morto. A juíza Patrícia Acioli e, ao que tudo indica, a vereadora Marielle Franco, foram assassinadas por milicianos que torturam e aceitam encomendas de morte, o que movimenta outro mercado de alguns milhões. As milícias também lidam com o tráfico de drogas, “alugando” regiões para determinadas facções como o Terceiro Comando Puro na baixada fluminense. As milícias, entretanto, segundo José Cláudio, são muito mais poderosas e perigosas que o tráfico. “As milícias elegem, o tráfico não”, sustenta.

Há vereadores milicianos, deputados milicianos, secretários e funcionários públicos atuando em favor das milícias, além dos policiais, e há lideranças políticas que se formaram com o apoio financeiro e político das milícias. Aqui as coisas ficam ainda muito mais complicadas tendo presente o atual quadro político brasileiro.

As conexões entre Bolsonaro e as milícias

Será preciso investigar para que se saiba até que ponto o clã Bolsonaro está ou não envolvido com as milícias. Chama a atenção, entretanto, que Jair Bolsonaro, em sua longa e improdutiva vida parlamentar, tenha, em diferentes momentos, elogiado as milícias (leia aqui) e os grupos de extermínio (ouça aqui). Aliás, já como candidato à Presidência, em entrevista à Jovem Pan, ele afirmou: “Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência” (veja aqui).

Bolsonaro defende Bandidos Milicianos do Rio de Janeiro

Fabrício Queiroz, policial com quem o presidente mantém antigo e próximo relacionamento e que atuou como seu motorista, mora em Rio das Pedras, berço das milícias cariocas, local onde sua família lida com transporte ilegal. Foi lá que se escondeu depois que o COAF descobriu que mais de 7 milhões de reais haviam passado por sua conta. Sua filha, Nathalia Queiroz, foi nomeada como assessora de Jair Bolsonaro em Brasília, mas trabalhava como personal trainner em uma academia no Rio.  O senador eleito Flávio Bolsonaro empregou a mãe e a esposa de Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar a milícia de Rio das Pedras e de integrar o grupo de extermínio conhecido como “Escritório do Crime”, investigado pelo assassinato de Marielle. Adriano, por seu turno, foi colega de batalhão de Queiroz, como apurou a jornalista Malu Gaspar da revista Piauí. Flávio Bolsonaro homenageou Adriano duas vezes na Assembleia Legislativa, inclusive lhe entregando a “Medalha Tiradentes”, a mais alta comenda do Poder Legislativo. Nem o fato de Adriano estar preso, à época, respondendo por homicídio, fez o “garoto” mudar de ideia. A medalha foi recebida na cadeia mesmo.

É possível que as milícias possuam tentáculos no Palácio do Planalto, o que significaria mais que uma grave ameaça ao País. Independentemente desse risco para o qual, imagino, o Mossad deva estar alerta, é preciso saber o que será feito no Rio de Janeiro. O delegado Hélio Luz, em meados dos anos 90, decidiu enfrentá-las, assim como Luiz Eduardo Soares, em 1999. O delegado da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Cláudio Ferraz, chegou a prender cerca de 500 milicianos. Em 2008, o deputado Marcelo Freixo (PSOL) presidiu uma CPI na ALERJ cujo relatório final pediu o indiciamento de 225 políticos, policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis (leia aqui). Nenhum deles encontrou o apoio necessário entre aqueles que realmente decidem. Luiz Eduardo foi obrigado, na época, a sair do Brasil e Freixo vive com escolta policial há anos. Os governadores e os demais políticos, desde os que silenciaram até os que se aliaram às milícias, são responsáveis por elas.

A miséria da política brasileira, em seus diferentes matizes e cores partidárias, criou um poder de matadores que conta com a simpatia do primeiro mandatário (“simpatia” na melhor das hipóteses). Apenas este fato, se não houvesse tantos outros, já seria suficiente para sublinhar o quanto é preciso refletir sobre a natureza das disputas políticas que produzimos e sobre a cretinice dos discursos que nos são oferecidos.  Onde erramos?  Essa é a primeira pergunta. Se não for ela, esqueça.

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