O silêncio e os Panzers

Nunca antes na história desse país, se poderia dizer, estivemos tão carentes de futuro.

O Brasil vive um momento especialmente difícil não apenas porque há uma crise econômica grave ou porque há um governo carente de legitimidade e de vergonha empenhado em nos conduzir à Idade Média. O que há de pior na crise atual é o fato de que não dispomos de uma alternativa política capaz de conduzir a nação por uma perspectiva de reformas civilizatórias. Nunca antes na história desse país, se poderia dizer, estivemos tão carentes de futuro.

Mesmo nos piores momentos da ditadura militar, possuíamos um horizonte utópico palpável. Era angustiante saber que haveria ainda alguns anos de violações pela frente, que teríamos de conviver com a arrogância dos generais, com seus lambe botas e com a mediocridade premiada, mas havia a luminosa esperança de que aquela tempestade chegaria ao fim. A democracia estava logo ali e haveria de ser restaurada. A liberdade que nos era negada como realidade política, irrigava nossas artérias como um combustível. Hoje, somos parte do temporal que se derrama sobre o Brasil. Para além da superfície que os discursos políticos têm construído desde há muito, para além das armadilhas que a autoindulgência nos prepara, para além dos chavões com os quais construímos nossa identidade grupal e anestesiamos o juízo, o fato radicalmente incômodo é que somos parte da crise e que nossas responsabilidades estão expostas ao sol, no varal da história, à espera de um acerto de contas radical que não virá.

A turma que temos hoje no Poder – que não é bem definida quando usamos a expressão “direita”, porque se trata de um tipo especial de direita vocacionada ao crime e à degradação política – foi alimentada a pão de ló pelo PT durante 14 anos. Aqueles que, à esquerda, criticaram esse tipo de arranjo espúrio e que indicaram insistentemente a dimensão conservadora de governos resultantes de um pragmatismo exacerbado e só orientado efetivamente pelo Poder, foram tratados como inimigos. Os sábios sempre estiveram seguros e foram implacáveis. Lula, a espécie tupiniquim do guia genial dos povos, incorporou a infalibilidade papal e não houve quem o contestasse. Foi um ajuntamento oportunista e mudo que recebeu a indicação de Dilma Rousseff à presidência, não um partido. Então, tivemos a campanha eleitoral dos campeões dos pobres alimentada pelo caixa dois das empreiteiras e conduzida pela mentira do começo ao fim. Instalada a crise política e econômica, a direita afastou o centro social-confuso em uma sórdida manobra parlamentar não porque tivesse um programa distinto, mas porque entendeu que essa era a única chance de “estancar a sangria” aberta pela Lava Jato. Dilma e seu governo, avaliaram as raposas mais velhas, não seriam capazes de “operar” uma transição em direção à impunidade dos chefes das quadrilhas políticas flagrados com a mão na botija.

A derrota do PT foi a derrota de uma perspectiva utópica que alimentou diferentes gerações de ativistas, mas descreveremos mal o processo se o tratarmos nos limites de uma derrota. Em 64 e em 68, a esquerda também havia sido derrotada, mas não desmoralizada. O tema central agora, como todos sabem, foi o envolvimento dos governos do PT com a corrupção. Sem que se enfrente este fato, sem que se construa uma resposta convincente ao tema da corrupção, a esquerda brasileira manterá um notável e persistente flanco, o mesmo que a fragiliza desde os episódios do mensalão como uma ferida inflamada e dolorida.

A extrema-direita no Brasil avança como a 7ª Divisão Panzer de Rommel, criada pelos nazistas em 1939 e conhecida como “Divisão Fantasma” (Gespensterdivision), porque ninguém sabia ao certo onde ela lutava.  No Brasil, os Panzers de Bolsonaro avançam pela trilha de silêncios e ambiguidades pavimentada pela esquerda. Nenhum ponto traduz isso com tanta agudeza quanto a Segurança Pública. Nesse particular, a trajetória de inconsistências e o menosprezo tradicional da esquerda pelas políticas públicas (derivação da concepção marxista sobre o Estado e de sua filosofia da história) cobram um preço extraordinariamente alto. Na ausência de políticas efetivas de Segurança, sem contar com uma só reforma institucional no modelo de polícia, no sistema prisional e na arquitetura da persecução penal, e sem qualquer mobilização em torno de projetos inovadores, a esquerda deixou o campo livre para que a demagogia punitivista, segregadora e armamentista ganhasse o senso comum em um cenário de violência disseminada que vitima basicamente os mais pobres e os negros. Seria preciso repensar tudo isso e muito mais para uma chance de futuro.  Ao que tudo indica, entretanto, a atenção da esquerda situa-se cada vez mais no passado.

Marcos Rolim – Sul 21 – 18 de janeiro de 2018.

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