Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo Bolsonaro

O sonho do clã

As sucessivas estultícias do clã Bolsonaro não expressam uma tática definida, como alguns ainda cogitam. Não há método nessa loucura, mas ressentimento e disposição violenta. O que não exclui a esperteza, nem a ambição. O clã trabalha com dois cenários: no primeiro, a economia se recupera, o governo consegue emplacar duas ou três reformas pró-mercado e Mortífero se reelege. Para isso, ele precisa, basicamente, manter o apoio de uma base fiel, em torno de 1/3 do eleitorado, e inviabilizar os candidatos que possam drenar votos à direita. No segundo cenário, a economia segue na UTI, o desemprego se mantém em taxas elevadas, a crise social se agrava, os serviços essenciais como a segurança pública param e o Brasil mergulha em dinâmicas de violência aguda, para além dos marcos da criminalidade conhecida. Nesse segundo cenário, se entender que suas chances eleitorais são rarefeitas, Bolsonaro tentará o golpe. Os inimigos? Os políticos corruptos, o Supremo Tribunal Federal (STF), a imprensa e o “comunismo internacional”. Essas serão as entidades apontadas como as responsáveis pelo desgoverno.

A mensagem a respeito do segundo cenário foi sintetizada esta semana em três momentos. No primeiro, Bolsonaro postou em sua conta no Twitter um vídeo onde um leão é cercado por várias hienas. O leão, claro, é ele próprio, Johnny Bravo para os íntimos. E as hienas?  Bem, o grupo é amplíssimo. Elas são os partidos políticos (PT, PCdoB, Psol, PDT, PSDB e PSL), o STF, a imprensa (Globo, Folha, Estadão e Veja), entidades da sociedade civil (OAB, CNBB, CUT, MST, Greenpeace e MBL – sim, também o MBL). Ainda há espaço para hienas que representam a “Lei Rouanet”, a “Via Sensata” (um blog de direita) e “o isentão”, ou seja, aqueles que posam de equidistantes, mas que, “quando apertados”, como o escreveu Rodrigo Constantino, se revelam “comunas”. Logo depois, o “leão” se arrependeu e pediu desculpas às “hienas”, o que não impediu que o vídeo circulasse amplamente pelo madraçal fascista. Logo depois, Bolsonaro gravou a inacreditável live da Arábia Saudita, acusando Witzel, seu aliado, de ter vazado informações sigilosas para implicá-lo no assassinato de Marielle. O pronunciamento termina aos gritos com ameaças à Rede Globo e uma sucessão de adjetivos como “canalhas”, “patifes”, etc.

O terceiro momento veio com a entrevista de Eduardo Bolsonaro onde o deputado sustenta a necessidade de um novo AI-5, “caso a esquerda radicalize”. Na tribuna da Câmara, referindo-se ao golpe de 64, ele já havia dito que, se as manifestações do Chile fossem reproduzidas no Brasil, a “história poderia se repetir”. Cobrado por conta da entrevista de 03, o Mortífero disse que “não tem nada a ver”, que quem falar em AI-5 agora “está sonhando”. A escolha verbal nessa resposta é curiosíssima, mas parece não ter chamado muita atenção. Na verdade, estamos diante de ato falho, uma vez que, no Brasil, apenas o clã Bolsonaro e mais alguns psicopatas são capazes de “sonhar” com o AI-5.

Os analistas políticos tendem a subestimar as chances de um golpe no Brasil, compreendido como ruptura para um regime autoritário tendente à ditadura. Outros empregaram e seguem empregando a expressão para designar o impeachment de Dilma, o que sempre me pareceu impreciso, além de agregar o risco de reduzir a percepção do público sobre a gravidade dos golpes. Para que fique claro, então, refiro-me à possibilidade de uma ruptura com a democracia no Brasil, com o surgimento de um regime semelhante ao modelo chavista, com apoio em segmentos das Forças Armadas e das polícias, nas camadas médias ressentidas e em bolsões militantes de perfil fascista, parte deles organizados como milícias. As possibilidades de ruptura com a democracia não são visíveis nesta conjuntura. Ocorre que essa realidade pode ser alterada muito rapidamente. Um ambiente de crise institucional, com a emergência de grandes movimentos de rua sem direção ou pauta política e violência disseminada, somado à percepção de que a impunidade dos corruptos é uma realidade assegurada pelas instituições mais importantes da democracia, podem construir o ambiente ideal para a aventura golpista.

Considerando as chances desse cenário, é preocupante que Bolsonaro tenha, ainda, 30% de aprovação entre os eleitores. Com essa mesma base, o sonho golpista será acalentado também para um eventual segundo mandato o que daria a Bolsonaro a chance de chegar à quarta indicação ao STF, com o que teríamos uma correlação na Suprema Corte de perfil, digamos, saudita. Nesse caso, a transição para uma ditadura poderia se dar totalmente “por dentro” do Estado, sem tanques nas ruas. A propósito, entre todos os possíveis candidatos alternativos de direita à presidência, ninguém reúne maiores possibilidades eleitorais do que Sérgio Moro. Se não mudar de ideia, Bolsonaro o indicará ao STF, mesmo antevendo grandes dificuldades para a aprovação pelo Senado. Eventual rejeição pelo Parlamento, não obstante, transformará Moro em um candidato ainda mais forte. Talvez ele seja a única possibilidade eleitoral capaz de receber todos os votos bolsonaristas e não apenas esses. Nos cenários mais prováveis, em síntese, as coisas podem piorar muito.

Posts relacionados