O TORTURADOR EMBOSCADO

As fotos de prisioneiros iraquianos que comprovam a tortura e as humilhações a que foram submetidos na prisão de Abu Ghraib continuam provocando indignação em todo o mundo. Como parte dos rituais que se encenam nessas oportunidades, autoridades civis e militares dos EUA anunciam “rigorosas punições” e o cenário que vai se montando deverá, rapidamente, isolar alguns subalternos para a necessária expiação.  Ao fim e ao cabo, se chegará à conclusão de que “personalidades depravadas” praticaram “excessos inaceitáveis”.  Penso que já é hora de se questionar esse tipo de raciocínio apaziguador pelo qual a maldade é “enquadrada”, providencialmente, como algo excepcional e estranho.

Na modernidade, já se pensou que a tortura era uma prática típica dos regimes totalitários. O horror nazista dos campos de concentração e do Gulag soviético sustentava a idéia. Mas, aí, surgiu o caso argelino e a nação francesa soube que seus soldados e policiais haviam praticado as piores atrocidades e que o “patriotismo” havia precipitado a França na desonra. Uma conclusão que fez com que Sartre, no prefácio a La Question, se perguntasse: “Se não existe precipício de desumanidade em que as nações e os humanos não se atirem, então porque se dá o mundo a tanto trabalho para se tornar, ou permanecer, humano ” ?  O fato é que a tortura nunca esteve restrita aos regimes de exceção. Ela foi comum nas ditaduras militares do Brasil e da América Latina, esteve presente da ditadura grega, na África do Sul, na Turquia, no Iraque, no Irã e em muitos outros regimes antidemocráticos, mas acompanha, também, a experiência democrática como uma sombra fétida. É assim ainda hoje, no Brasil e em muitos países, quando falamos do trato aos suspeitos e aos prisioneiros comuns.  É preciso, então, que nos perguntemos: – por que?

Stanley Milgram, o psicólogo americano autor de “Obedience to Authorithy”,  demonstrou, através de  uma experiência que se tornou célebre, que pessoas comuns – muito distantes do sadismo – podem ser transformadas rapidamente em torturadores quando instadas a obedecer uma autoridade tida como legítima.  Em regra, é disso que se trata quando estamos diante da tortura.  A idéia de que o torturador é um psicopata é, normalmente, apenas uma boa desculpa para os seus chefes.  Para entender as razões pelas quais é possível que pessoas comuns pratiquem o mal radical, penso que devemos revisitar Hannah Arendt.   Quando acompanhava o julgamento de Eichmann em Jerusalém, Arendt percebeu que o oficial nazista era uma pessoa comum e que era incapaz de refletir sobre o sentido do mal que havia praticado. A intuição genial da filósofa nos é, então, apresentada na forma de uma pergunta: “Não será o mal um resultado da ausência de reflexão ”? Em síntese: essa incapacidade, tão atual, de pensar o próprio pensamento, de questionar os próprios valores, não estaria na base do que temos de pior?  Não carregaríamos, de alguma forma, um torturador emboscado em nossos preconceitos, na secreta intolerância que guardamos? O que faríamos em Abu Ghraib se os presos fossem os “nossos inimigos”?  Se você ficou na dúvida, pense no que você tem feito a respeito dos presos brasileiros.

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