“Em tempos de neofascismo, a política se tornou centrífuga, porque não importa mais unir eleitores em torno de uma plataforma comum, mas de estimular ao máximo as paixões mais desarrazoadas”

Os engenheiros do caos

Após a 1ª guerra mundial, o economista John Maynard Keynes (1883-1946) – lembrado nesses tempos de pandemia pela sua posição favorável à intervenção do Estado para enfrentar ciclos econômicos adversos como as recessões – disse aos seus alunos:

Quase toda a sabedoria de nossos homens de Estado foi erigida sobre pressupostos que eram verdadeiros numa época, ou parcialmente verdadeiros, mas que o são, a cada dia, menos. Nós devemos criar uma nova sabedoria para uma nova época. E, ao mesmo tempo, se queremos reconstruir algo bom, vamos precisar parecer heréticos, inoportunos e desobedientes aos olhos de todos aqueles que nos precederam.

Muito provavelmente vivemos um momento em que tais exigências são ainda mais amplas. A pandemia do coronavírus evidencia isso de forma dramática. É preciso, entretanto, atentar para a política e suas formas se quisermos compreender o que já mudou radicalmente para pior.

Para isso, recomendo o pequeno grande livro de Giuliano Da Empoli, Os Engenheiros do Caos (Vestígio, 190p.) que descreve como atuam, nos bastidores, os estrategistas do neopopulismo, a partir da manipulação da avalanche de informações sobre o comportamento humano na era digital.

O argumento principal do texto é que a política de hoje é filha do encontro entre a raiva e os algoritmos. Explico: até há alguns anos, a política exigia a exposição pública de posições. Os políticos até podiam manter discursos diferentes a depender do seu público, mas isso era sempre um risco e costumava ocorrer, sobretudo, em reuniões com grupos de interesse.

Nos processos eleitorais, os discursos convergiam naturalmente para o centro, porque os extremos não permitiam sucesso em disputas majoritárias. Assim, quem ganhasse o centro político vencia as eleições, o que explica por que os conservadores faziam acenos à esquerda, enquanto a esquerda fazia acenos aos conservadores.

Lula, por exemplo, venceu sua primeira eleição lançando a Carta ao Povo Brasileiro que, na verdade, foi um documento de garantias “ao mercado”; já Dilma, no 2º turno de 2010, comprometeu-se a não enviar ao Congresso projeto pela legalização do aborto, enquanto competia com Serra para saber qual dos dois seria mais orientado pelos valores cristãos.

Com as redes sociais e as novas ferramentas digitais de comunicação, o que mudou é que a política foi sequestrada da esfera pública. O espaço de formação de opinião passou a ser, crescentemente, avesso à luz pública. Pessoas foram identificadas como “influenciáveis” pelo exame de suas personalidades via redes sociais e através de algoritmos capazes de processar bilhões de dados em frações de segundo; ato contínuo, empresas de big data passaram a assessorar partidos e candidatos em vários países, capturando eleitores em bolhas de interação virtual.

A BOLHA – Com essa tecnologia, tornou-se possível bombardear indivíduos com mensagens cada vez mais customizadas e radicalizadas. Como todos na bolha compartilham os mesmos valores e limitações culturais, as posições extremadas passam a liderar, no grupo, a construção de um mundo paralelo, formatado por teorias da conspiração e por absurdos os mais variados, o que é invisível aos que estão fora da bolha e que, por isso, não podem contestar o que ali é dito. O resultado é que as diferenças políticas não são mais aquelas que diziam respeito às opiniões sobre os fatos. Antes disso, o que passou a nos separar são os fatos em si.

Em um mundo onde milhões de pessoas só leem textos no WhatsApp ou no Facebook e se informam sobre questões complexas no Instagram ou em vídeos do YouTube, contar com uma minoria intolerante passou a ser decisivo nas disputas políticas. Os líderes de extrema-direita, de fato, estimulam a formação de várias bolhas de intolerância.

Dos grupos de evangélicos pentecostais aos adoradores das armas; dos grupos racistas aos profissionais liberais e servidores públicos conservadores; dos empresários proponentes do capitalismo selvagem aos policiais e militares saudosos da ditadura; dos grupos misóginos, aos ativistas antivacinas e aos terraplanistas, temos indivíduos que não precisam compartilhar as posições que transitam pelas demais bolhas radicalizadas.

Quanto mais amplamente essas minorias reverberam disposições de ódio, menor é o custo de adesão de pessoas situadas no antigo centro político às plataformas extremas. Tudo se passa como se as bolhas radicais fossem, então, “fagocitando” o centro, sempre em nome do combate a um “inimigo” que seria a própria expressão do mal.

Em tempos de neofascismo, a política se tornou centrífuga, porque não importa mais unir eleitores em torno de uma plataforma comum, mas de estimular ao máximo as paixões mais desarrazoadas, ainda que elas sejam contraditórias, para, no momento oportuno, somar todos os “indignados-com alguma-coisa”, alinhando-os com o candidato que se apresenta como “antissistema”, capaz, nessa condição, de acolher a raiva, o medo e as frustrações em um discurso convenientemente caótico, contraditório e embebido, desde sempre, no rancor.

Desmontar essa dinâmica passou a ser o principal desafio das democracias contemporâneas antes que elas próprias sejam destruídas. Haverá tempo?



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