Os Miseráveis

O filme “Os Miseráveis”, longa de estreia do diretor francês Ladj Ly, dividiu com “Bacurau” o grande prêmio do Júri em Cannes e foi indicado ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro. Trata-se de estonteante ficção de estilo documental, que acompanha as atividades de patrulhamento de três policiais franceses em uma área em Montfermeil, subúrbio de Paris, onde vivem imigrantes africanos e seus descendentes, parte deles muçulmanos, além de outros grupos discriminados como os ciganos. O diretor, filho de imigrantes de Mali, mora na região e um dos atores do filme é seu filho, Al-Hassan Ly, que faz Buzz, o garoto do drone.

A escolha do nome do filme, tomada de empréstimo do clássico de Victor Hugo, não é, claro, casual. Les Miserables, como se sabe, é uma obra sobre a injustiça. Nela, o grande romancista francês mostrou como sociedades fraturadas produzem, também, um sistema persecutório que opera seletivamente, punindo quase sempre pessoas como Jean Valjean, o protagonista do romance, que furtou um pão para sua irmã e seus sobrinhos, sendo, por isso, condenado a 19 anos de prisão, cinco deles em trabalhos forçados nas galés. Valjean será perseguido implacavelmente pelo inspetor Javert, um policial obstinado pela aplicação da lei, mas incapaz de ser justo. Passados quase 160 anos desde o lançamento do livro, a realidade da sociedade francesa e da maioria dos países contemporâneos exibe características tão ou mais absurdas de injustiça. É o que vemos no magnífico filme de Ladj Ly.

Montfermeil foi onde Victor Hugo ambientou parte de seu romance. Ali, ele situou os inescrupulosos Thénardiers, cujo filho Gavroche viverá nas ruas até se integrar, ainda menino, aos revoltosos de 1835. Sobre Gavroche, Vargas Llosa afirmou que o personagem é “um dos mais atraentes e carinhosos da ficção”, algo como a representação da alegria, da inventividade e da indisciplina. O filme de Ly nos apresenta o jovem Issa (Issa Perica), uma criança indisciplinada, filha de imigrantes, que é, assim como Gavroche, alegre, esperto e transgressor. Sua trajetória também irá conduzi-lo à rebelião, em uma das sequências mais impressionantes já construídas no cinema e que encerra lições para todos os que se preocupam com a segurança pública e com os desafios modernos do policiamento. Não há, no filme, um inspetor Javert, mas um contraponto entre duas perspectivas de policiamento, representadas por Chris (Alexis Manenti), um policial violento e corrupto, e por Ruiz (Damien Bonnard), que lhe oferece algum tipo de resistência e bom senso. Não se espere, entretanto, simplificação ou maniqueísmo. Os personagens do filme são complexos e a realidade concreta sobre a qual atuam é atravessada por contradições, práticas ilegais, violência disseminada e histórias de medo e ressentimento.

As polícias contemporâneas podem pouco quando mobilizadas para oferecer respostas repressivas sobre populações historicamente privadas de tudo, especialmente da atenção do Estado. As melhores chances das polícias aparecem quando elas constroem relações de confiança com as comunidades mais pobres e articulam ações que auxiliam esses segmentos a resolver problemas, prevenindo práticas violentas, protegendo seus membros mais frágeis, intermediando conflitos, afirmando um padrão de abordagens respeitosas e evitando que atos de menor gravidade acionem as garras do Direito Penal.

O que o filme mostra é que uma realidade de exclusão, marcada por tensões de todo o tipo e por práticas ilícitas, pode se tornar ainda muito mais disruptiva quando os únicos representantes do Poder Público presentes – os policiais – agem de forma arbitrária. O enredo permite refletir, também, sobre a realidade do multiculturalismo, seja para identificar o quanto a ideia de uma “cultura nacional impositiva” – aquela anunciada recentemente pelo candidato a Goebbels tupiniquim, com trilha de Wagner – se confunde com uma promessa de violência, seja para alertar os setores progressistas quanto aos desafios da integração das diferentes culturas em um Estado Democrático de Direito.

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