OS SONHADORES

Ridley Scott é, por certo, um dos maiores diretores de todos os tempos. Depois de Blade Runner, uma fantástica metáfora filosófica sobre o sentido da própria vida humana e do admirável e feminista Thelma e Louise, esse mago do cinema nos oferece agora 1492: A conquista do Paraíso, a história da saga de Colombo.

Estamos diante de um filme extraordinário que merece ser visto e debatido. Não se trata, como se poderia imaginar, de apenas outro filme referente a um acontecimento histórico ou de uma superprodução estruturada em uma narrativa factual como um documentário. 1492 é, sobretudo, um discurso poético em defesa das utopias e dos seres humanos que dedicaram suas vidas à perseguição dos sonhos mais generosos. Cristóvão Colombo foi um destes sonhadores incorrigíveis que pagou um alto preço por sua genialidade e coragem. Em sua época, afrontou o poder da Igreja e dos nobres e- sumo pecado – tentou colocar em prática no “novo mundo” regras alternativas de convívio social.

A obra de arte de Ridley Scott alcança a façanha de recriar o mundo mágico e aterrorizante da idade média, criando personagens inesquecíveis. A interpretação de Gerard Depardieu no papel principal é, simplesmente, perfeita. O Colombo que nos é proposto na tela surge como um homem do povo, rude e ambicioso, mas, ao mesmo tempo, terno, justo e verdadeiro; um indivíduo contraditório e fascinante. Sigourney Weaver no papel da Rainha Isabel transforma alguns minutos de tela em um espetáculo delicioso e, assim, sucessivamente, todo o elenco atua de forma magistral. Há um personagem, entretanto, cuja força dramática marca profundamente o filme. Por tudo aquilo que evoca simbolicamente como a presença do mal na história, é o nobre Moxica quem retrata mais fielmente a “razão vitoriosa” no processo de colonização. Pouco importa seu destino individual, Moxica é o espírito objetivo de uma época onde se queimavam hereges em praça pública, onde se acreditava na superioridade da nobreza e na necessidade de submissão dos nativos à civilização cristã. Não por acaso, o personagem chama os índios de “macacos” e se delicia com o sangue em sua espada. O confronto entre Colombo e Moxica seria atualizado quase três séculos depois da “descoberta” das Américas nas revoluções Americana e Francesa e, rigorosamente, jamais foi equacionado de todo.

Ainda estes dias, o senhor Rogério Mendelsky, da RBS, contava uma “piada” em seu programa sobre a candidata do PT no Rio de Janeiro, Benedita da Silva, chamando-a de “macaca”. Rogério Mendelsky certamente não apreciará “1492” de Ridley Scott e seu divertimento maior continuará sendo desdenhar os trabalhadores e suas lutas. Como todo reacionário que se preze, o referido “jornalista” continuará sustentando a realidade e estigmatizando os sonhadores que desejam mudá-la. Esse é um dos nossos problemas: temos “Moxicas” demais e “Colombos” de menos.

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