Candidatos Eleição 2018

Para derrotar o fascismo

O inominável estará no 2º turno, zombando da democracia e oferecendo a morte como seu verdadeiro programa de governo. É preciso derrotá-lo politicamente. Para tanto, há uma escolha a fazer, por sobre os partidos e seus pequenos discursos.

Há, efetivamente, a possibilidade de um agrupamento do lumpesinato político brasileiro, de perfil fascista, vencer as eleições. Desiludidos com a política tradicional, indignados com a corrupção, vitimados pelo crime, pela violência e pela incapacidade de diferentes governos em garantir sua segurança, atormentados por preconceitos e dogmas religiosos e inoculados pelo ódio, milhões de eleitores de todas as classes sociais estão firmemente dispostos a eleger um projeto fundado na promessa da morte, cujos heróis são torturadores e assassinos. Nunca antes na história desse País estivemos diante de circunstância tão grave.

Se o fascismo vencer, não haverá governo, mas um ópera bufa que nos conduzirá, em curto intervalo, à antessala de um golpe militar. Um golpe no sentido mais preciso dessa expressão, como ato fundador de uma nova ordem, arbitrária e excludente, onde os direitos são pulverizados e os opositores podem ser eliminados. Esse poderá ser o desfecho, porque um eventual governo Bolsonaro tende a agravar rapidamente a crise econômica e social; a produzir um surto de violência sem precedentes e, ao mesmo tempo, uma ampla resistência política e social. Em um ambiente marcado pela ausência de consensos mínimos, com um governo disposto a impor pela violência sua agenda intolerante, teremos as condições propícias para uma ruptura com a democracia. A eventual eleição de Bolsonaro com a assunção às posições de mando de uma seleção de incapazes, entre eles vários “profissionais da violência”, irá fraturar o Brasil de forma irremediável. A ignorância do primeiro mandatário e sua fixação em fuzilar pessoas se encarregarão do resto.

Trata-se, portanto, de impedir a vitória do fascismo. Qualquer outra alternativa será muitas vezes preferível. Por isso, no 2º turno, votarei contra Bolsonaro, marcando o número de seu adversário, seja ele Ciro, Haddad, Marina ou Alckmin (para citar aqueles que, efetivamente, disputam essa vaga).

Nesse momento, entretanto, importa selecionar a melhor opção para o Brasil e aquela que seja, também, a mais capacitada para vencer o fascismo de uma forma que ele seja não apenas eleitoralmente superado, mas politicamente derrotado. Antes de alinhar meu argumento, quero sublinhar que admiro muito a trajetória política e pessoal de Marina Silva; que Fernando Haddad me parece um quadro político capacitado e que considero Geraldo Alckmin um político coerente e experiente. Tenho diferenças políticas importantes com cada um deles e com seus partidos, assim com as tenho com o PDT e com Ciro, aquele que, a meu juízo, é o candidato mais preparado para assumir a Presidência e iniciar um ciclo virtuoso de reformas.

Para situar minha opção, lembro que a esquerda brasileira esteve, até há pouco, absolutamente alheia ao crescimento da alternativa representada por Bolsonaro (de certa forma, ainda está). Tenho escrito sobre Bolsonaro e a ameaça fascista no Brasil há alguns anos. A cada artigo publicado, o que colhi como comentários na esquerda era que eu estava exagerando os riscos. “Bolsonaro não têm fôlego”, “ele irá se desconstituir assim que os debates começarem”, “não tem estrutura partidária, nem trânsito entre a burguesia”, foram as observações típicas. Muito recentemente, amigos petistas ainda insistiam comigo que o “adversário real” seria Alckmin. Em alguns debates que participei, militantes chegaram a defender que Alckmin era o “fascismo dissimulado”, algo mais perigoso do que o “fascismo escrachado” do Coiso. Estavam redondamente enganados.

Por que se enganaram? Primeiro, porque não perceberam a dimensão e a natureza da crise política atual. Para a esquerda, a crise é, basicamente, o governo Temer e suas reformas antipopulares, o que é uma simplificação obtusa. A crise política real, cujos sinais estavam já nas mobilizações de 2013, diz respeito à ausência de uma alternativa política para o Brasil e ao descolamento da sociedade de qualquer referência nas instituições tradicionais, a começar pelos partidos. Ela surge da exaustão de um sistema político que promove corrupção, desperdício e ineficiência em escala industrial. Esses resultados se tornaram mais claramente perceptíveis quando veio a público o envolvimento (prática + conivência) do PT com a corrupção, primeiro com o “mensalão”, depois com os desvios bilionários na Petrobrás. O fato do partido nunca ter conseguido “acertar as contas” com os responsáveis por esse e outros ilícitos acentuou a desmoralização pública de um projeto que representou, por quase três décadas, o sonho de milhões de pessoas. O impeachment foi a consequência dessa desmoralização, mas só ocorreu porque os caciques partidários implicados na Lava Jato perceberam que Dilma não seria capaz de “estancar a sangria” e que Temer, o aliado preferido de Lula, seria o nome indicado para costurar um acordo “com o Supremo, como todos”.

O PT poderia ter cortado em sua carne e aberto, como o sugeriu Noam Chomsky, uma ”Comissão da Verdade” a respeito de seus erros (veja aqui: https://goo.gl/hMZYK2 ). Ao invés de enfrentar seus limites, entretanto, o partido produziu uma versão para o público. Como de costume, optou pela rima, não pela solução. Seu discurso foi o de que havia ocorrido um “golpe de Estado” e que a democracia tinha sido desconstituída. Em 2 de setembro de 2016, nota oficial da direção do PT (veja aqui: https://goo.gl/j2Fbm3 ) afirmou que o impeachment “violou a Constituição e provocou a ruptura do regime democrático”. A causa desse processo foi identificada nos seguintes termos: “Esta foi a saída encontrada pelos setores hegemônicos do capitalismo brasileiro para interromper e reverter o processo de mudanças iniciado em 2003”. Curioso que foi exatamente ao setor hegemônico do capitalismo brasileiro que o comando da economia havia sido entregue pelos governos Lula (Meirelles) e Dilma (Joaquim Levy). Ao mesmo tempo, as instituições democráticas seguiram operando nos marcos anteriores ao impeachment e todas as questões jurídicas ou políticas polêmicas se dão no quadro comum dos limites anteriores. Assim, por exemplo, sequer a nova jurisprudência do STF em relação ao início do cumprimento da pena aos condenados em 2ª instância assinala verdadeira ruptura em uma ordem legal que convive historicamente e sem contradições com 40% de encarcerados sem condenação em 1ª instância. Um fato que, assinale-se, nunca mobilizou a atenção da esquerda.

O fato de Dilma ter escondido a gravidade da crise econômica na campanha e de ter aplicado em seu 2º mandato um programa que era o oposto do que ela havia defendido durante as eleições – um caso típico de estelionato eleitoral – foi ignorado pelo PT. O fato de lideranças do partido passarem a ser sistematicamente apontadas como responsáveis por falcatruas de todos os tipos em delações premiadas passou a ser tratado como um subproduto do “golpe”. Assim, por exemplo, a nota oficial referida afirmou que a Operação Lava Jato era “um dos aríetes do movimento golpista”.

Todo o discurso do PT nesse processo se deu contra a Lava Jato. Independentemente dos erros e abusos praticados por policiais federais, promotores ou magistrados, não há dúvida de que os resultados da Lava Jato foram e seguem sendo muito importantes para o Brasil. Sem ela, a Petrobrás continuaria sendo saqueada e todo o esquema de corrupção das empreiteiras com os partidos, montado há décadas, seguiria operando desembaraçadamente. É curioso que a esquerda seja ciosa das garantias fundamentais quando suas lideranças são processadas, mas nunca tenha destacado que a corrupção atenta contra o Estado Democrático de Direito e que eleições estruturadas em esquemas ilegais de financiamento conspiram contra a democracia. Pelo contrário, para além das platitudes com as quais todos reafirmam seus compromissos contra a corrupção, surgiu na esquerda e em uma certa Sociologia prêt-à-porter a tese de que a corrupção é uma “cortina de fumaça”, um tema com o qual as elites brasileiras e a mídia desviam a atenção do povo dos “problemas reais”. Esse discurso, concretamente, protege os corruptos de todos os partidos.

O que a esquerda não percebeu é que esse discurso, funcional e muito operante para recompor sua base, estimulava o antipetismo e era aproveitado pela extrema direita como adubo para Bolsonaro. A alternativa política fascista se cria, então, pela confluência de dois grandes vetores: a) a descrença com a política frente à dimensão acachapante da corrupção revelada e b) o medo disseminado socialmente, inclusive entre os mais pobres, diante das dinâmicas criminais e violentas que degradam o padrão de vida urbana, produzindo cada vez mais sofrimento e desejos de vingança. São essas as principais circunstâncias históricas que viabilizam politicamente um discurso intolerante que oferece às pessoas duas garantias, ainda que, no caso, completamente ilusórias: “honestidade” e “segurança”, exatamente aquelas que os governos Lula e Dilma não conseguiram assegurar.

Se Haddad passar ao 2º turno, não conseguirá atrair o centro político para sua campanha. Aliás, não por culpa dele, mas pelos movimentos realizados por Lula, terá dificuldade de assegurar uma militância efetiva dos grupos situados na centro esquerda. Os riscos de Haddad ser derrotado por Bolsonaro – que irá se nutrir do antipetismo e de toda a nojeira disseminada nas redes sociais em torno do anticomunismo, da homofobia, das incompreensões quanto aos direitos humanos, além de sua própria condição de vítima de um atentado cujo autor teve militância na esquerda, são, por isso mesmo, consideráveis e já foram suficientemente identificados pelas pesquisas eleitorais.

Se Haddad passar ao 2º turno e vencer as eleições, entretanto, enfrentará condições muito mais difíceis do que aquelas com as quais Lula e Dilma se depararam ao início dos seus mandatos. Para compor uma base mínima no Congresso, o PT irá se juntar ao MDB onde estão os aliados de ontem e de hoje. Como todos sabem, o PT já firmou nessas eleições alianças estaduais com uma penca de “golpistas” e, não por acaso, Lula afirmou, antes de ser preso, que havia “perdoado os golpistas” (https://goo.gl/Sqwkjd) . Um governo do PT em aliança com o MDB será um governo contra a Lava Jato, que firmará compromissos para salvar Lula, Temer e os demais. Essa dinâmica irá subtrair legitimidade do governo, acirrando os ânimos ainda mais e impedindo o País de sair da crise. Um eventual governo de Haddad, reforçará os termos da mesma polarização ideológica que intoxica o País e será mais dependente da escumalha da política nacional do que já o foram Lula e Dilma. Sem a força política de Lula, sem condições de exercer liderança sequer sobre o próprio PT, Haddad seria, a par de suas qualidades, um presidente frágil.

Caso Ciro seja conduzido ao 2º turno, teremos uma dinâmica completamente distinta. Primeiro, os indicadores disponíveis mostram que ele pode vencer Bolsonaro por significativa margem. Além de ter baixa rejeição, o discurso de Bolsonaro não “cola” em Ciro. Um governo Ciro, no mais, teria todas as condições para iniciar um novo ciclo na política brasileira, marcado por um projeto nacional de reformas coerentes, de sentido democrático e orientado politicamente pelo objetivo de isolar o MDB e de enfrentar o rentismo que foi, até hoje, preservado por todos os governantes, incluindo Lula e Dilma. O programa de Ciro, “Diretrizes para uma estratégia Nacional de Desenvolvimento para o Brasil” (veja aqui: https://goo.gl/awVqco) registra compromissos avançados, situados muito além da pautas propostas pela esquerda.

Um governo Ciro romperá a polarização PT X PSDB que já se prolonga por 30 anos e que construiu os impasses que estamos vivendo. Ciro terá condições de formar um novo bloco histórico, inclusive com o apoio e a participação do PT e do PSDB. Esse resultado enfraquecerá a extrema direita, tornando muito menos provável que, nas próximas eleições, o fascismo se apresente com força redobrada e seja mesmo imbatível.

Por essas razões, no próximo dia 7 de outubro, votarei em Ciro Gomes (PDT) para presidente. Nunca antes em minha vida, tive tanta convicção em meu voto de 1º turno. Nem mesmo quando votei em Lula (duas vezes) e em Marina (duas vezes). O que há de diferente nesse momento histórico não são as qualidades dos candidatos, mas a radicalidade da ameaça que assombra o Brasil. Chegou o momento da cidadania consciente fazer aquilo que as burocracias partidárias foram incapazes: assegurar a ida ao 2º turno da melhor alternativa política para o Brasil se unindo em torno do candidato com maiores chances de evitar o horror. Ciro Gomes é essa resposta!

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