Pensando sobre Nanette

O tema da violência sexual vai sendo desfiado por Gadsby com uma fala que é, na verdade, um acontecimento fundador, um novo começo no mundo, uma marca para que tudo seja muito diferente.

“Nanette” é o show de uma comediante australiana chamada Hannah Gadsby, disponível na Netflix e que tem merecido reportagens especiais e entrevistas em importantes veículos como New Yorker, Atlantic, The Guardian, Washington Post e Vanity Fair. O espetáculo dura pouco mais de uma hora e vale para a vida toda. Alguém que comece a assisti-lo sem saber do que se trata estará diante de um stand-up como tantos outros, com piadas inteligentes em torno da condição lésbica de Gadsby. O que vamos perceber depois é que a comediante constrói algo radicalmente diferente. O riso que ela provoca é um meio tortuoso e radical para permitir o pensamento e efetuar uma das denúncias mais potentes a respeito da imbecilidade que anda por aí, solta e desinibida como nunca.

Ao longo de sua fala, para um Sydney Opera House lotado, Nanette vai alternando momentos de relaxamento e tensão. No meio do caminho, relata que foi diagnosticada com o Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e passa a erguer a estrutura para a crítica à intolerância. Produz, de fato, algo que se poderia chamar de um manifesto doloroso e, ao mesmo tempo, tão pleno de esperança e de amor que é como se estivéssemos diante de uma evidência de que um mundo melhor é mesmo possível. O resultado tem sido apontado como uma revolução no gênero. A premiada comediante americana Kathleen Mary Griffin, tuitou: “Tenho sido uma comediante profissional por 30 anos, tenho estudado comédia por esse tempo todo e pensava que já havia visto tudo…” Outra veterana no circuito, Kristen Schaal, disse que “não há nada melhor ou mais importante no gênero que Nanette”.

Na primeira parte do show, a artista faz graça com episódios que enfrentou em sua vida e assinala passagens em que o preconceito atropelou o cotidiano de uma mulher cuja aparência física não corresponde ao estereótipo de gênero. Pode-se imaginar o que ela enfrentou tendo nascido e se criado em uma pequena e isolada cidade na ilha da Tasmânia, uma região da Austrália marcadamente religiosa e intolerante, onde a homossexualidade foi considerada crime até 1977. Mais adiante, ela surpreende a audiência expondo uma visão autocrítica a respeito de sua trajetória profissional e anuncia sua decisão de desistir da comédia, dizendo que “continuar significaria me deixar suspensa em um permanente estado de adolescência”. Na parte final, Gadsby desmonta a misoginia e a homofobia de um jeito que é quase impossível respirar.

O tema da violência sexual – tantas vezes naturalizada pelos homens e sempre renovada como uma ameaça pressuposta, ali ao lado, na sala cheia de rapazes onde uma mulher se move como uma presa acossada; na parada de ônibus onde um sujeito qualquer pode meter a mão nela, ou espancá-la até que tenha que ser atendida em um hospital para, depois, se calar e não registrar ocorrência – vai sendo desfiado por Gatsby com uma fala que é, na verdade, um acontecimento fundador, um novo começo no mundo, uma marca para que tudo seja diferente. Como bônus, quem assistir Nanette terá importantes informações sobre história da arte, sendo que Van Gogh e Picasso, por razões muito diferentes, entram no debate de uma forma também radical.

O espetáculo como um todo oferece, claro, um contraste com o que se entende por humor no Brasil, mostrando que é possível fazer graça sem que as pessoas sejam humilhadas. Rir dos fragilizados, dos pobres, das mulheres, dos negros, dos gays é, na verdade, um tipo de perversão que jamais poderia se confundir com humor, muito menos com arte. Aliás, em entrevista ao Sydney Morning Herald (https://goo.gl/FuopUm), Hannah Gatsby fala algo que pode ser uma boa trilha para se compreender a dinâmica do ressentimento masculino:

São frequentemente homens jovens testando suas filosofias de vida e temos uma geração desses homens que acreditam que são vitimados porque receberam a promessa do mundo. Isso é um cálice envenenado, porque, agora, há uma lacuna entre o que é a narrativa cultural e qual é a experiência deles. Olhando para trás, acho que me fez mais bem do que mal o fato de que não me foi prometido absolutamente nada. Sempre me foi dito que eu não importava para o mundo, mas o mundo ainda é importante para mim. É por isso que não respondi aos aspectos mais brutais da minha vida com violência ou amargura.

É preciso falar sobre a história de Nanette, pensar sobre e reconsiderar muitas coisas. Especialmente, penso que pais e mães que receiam que seus filhos ou filhas sejam homossexuais ou que não sabem como lidar com a situação encontrarão na escuta atenta dessa obra de arte algo definitivo.

 

Marcos Rolim – Sul 21.

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