Por uma política de Frente Ampla

Alianças são essenciais em política e só constituem um problema quando estruturadas à margem de um programa concreto; vale dizer, quando são descriteriosas e se orientam exclusivamente pela conquista ou manutenção do poder.

Tenho me lembrado, nos últimos meses, de um livro que li em minha juventude e que me causou profunda impressão. Chama-se “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha” (Editora Ciências Humanas, 352 pág.), uma coletânea de textos escritos por Trotsky entre 1930 e 1933. O conjunto é excepcional, porque os textos são uma tentativa desesperada do líder bolchevique, perseguido por Stálin, de influenciar as disputas políticas em curso na Alemanha nos anos que antecedem a chegada de Hitler ao poder. Trotsky escreve esses textos exilado na Turquia, sem uma estrutura mínima de comunicação, sem informações detalhadas sobre a conjuntura alemã, interpretando a realidade com base em jornais europeus e em resoluções políticas da Internacional Comunista que lhe chegavam às mãos. Na época, ele percebe que a classe operária alemã estava diante de um risco terrível. O fascismo era uma ameaça concreta e Hitler poderia chegar ao poder. Se isso ocorresse, haveria uma guerra civil e toda a Europa seria atingida. Os textos, então, discutem qual deveria ser a tática dos comunistas diante da ascensão do fascismo. As orientações emanadas da III Internacional, dirigida por Stálin, tratavam os socialdemocratas como “irmãos gêmeos do fascismo”. Trotsky entende que essa linha era de uma estupidez sem precedentes e se empenha, então, a demonstrar que a realidade alemã exigia uma política de “Frente Única” com os socialdemocratas.

É curioso como uma liderança política como Trotsky, marcado pela defesa intransigente de princípios revolucionários e sempre disputando o local do “verdadeiro marxismo”, vale dizer, sempre apegado à metafísica, o que o conduziu inúmeras vezes a posturas dogmáticas e mesmo intolerantes (os que tiverem dúvidas, leiam as barbaridades que ele escreveu em “Terrorismo e Comunismo”, quando estava no poder), tenha, diante da gravidade de uma situação política inédita, percebido, com tamanho brilho e de forma quase profética, o que estava em jogo. A marca da genialidade talvez explique as razões pelas quais Trotsky supera os limites de sua própria ideologia quando discute os desafios imediatos em uma realidade tão complexa como aquela.

Ele lança mão de muitos argumentos. Em um dos textos, toma uma fábula de Esopo como epígrafe, adaptando-a aos seus objetivos polêmicos. O texto citado fica assim:

Um marchante conduzia seus bois ao matadouro. Veio o açougueiro com sua faca. – Cerremos fileiras e, com nossos chifres, transpassemos esse carrasco! Propôs um dos bois. – Mas, em que o açougueiro é pior que o marchante que nos conduz aqui a golpes de aguilhada? Responderam os bois educados politicamente na escola stalinista. – Em seguida, porém, podemos acertar as contas com o marchante! – Não, responderam os bois-de-princípios. Estás defendendo os inimigos da esquerda; és um social-açougueiro! E recusaram-se a cerrar fileiras.

Nessa linha e escrevendo sem subterfúgios que protegessem suas posições, Trotsky afirma: “na luta contra o fascismo, estamos prontos a fazer acordos práticos de luta até com o diabo e com sua avó”.

Se estamos, como imagino que estamos, diante do risco concreto da ascensão do fascismo no Brasil, talvez fosse interessante que a esquerda brasileira revisitasse “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha”. Alianças são essenciais em política e só constituem um problema quando estruturadas à margem de um programa concreto; vale dizer, quando são descriteriosas e se orientam exclusivamente pela conquista ou manutenção do poder. Foi essa perspectiva oportunista que guiou o PT, com alianças feitas com a extrema direita e com o que havia de mais degradado na política brasileira (Sarney, Collor, Maluf, Renan, Temer, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral et caterva), um contubérnio que alcançou também os mais expressivos empresários corruptos do País, como todos sabem.

O PT é, hoje, o principal obstáculo a uma política de Frente Ampla capaz de viabilizar uma candidatura competitiva de unidade entre os democratas, em um campo que vai do centro à esquerda (uma distância que, ao contrário do que imaginam os fiéis, é muito pequena no Brasil). A tática de insistir com o nome de Lula como candidato e de se dedicar efetivamente a derrotar a Lava Jato, dificulta a unidade possível e assinala um desses momentos históricos de falência da razão em que décadas inteiras tendem a se definir.

Entre o centro e a esquerda, há, hoje, quatro candidaturas: Ciro, Marina, Manuela e Boulos. A esses nomes, deverá se somar uma candidatura do PT (talvez Haddad). Estamos a poucos meses das eleições e não há um só movimento consistente para uma política de unidade contra o fascismo. Pelo contrário, a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, declara que “o nome de Ciro não passa no PT nem com reza brava”. Uma declaração que revela indigência política. Na mesma linha, muitos são os militantes da esquerda que se dedicam a atacar eventuais aliados como Ciro e Marina nas redes sociais e nos espaços onde costumam exercer sua maior especialidade: agredir pessoalmente e mobilizar a intolerância. Os ataques pessoais e a disputa fratricida entre os nomes que poderiam brecar o avanço da extrema direita encobrem, na verdade, a ausência de um programa e de definições centrais em termos de políticas públicas que permitam um debate sério sobre o futuro do Brasil.

Sem um pensamento estratégico e incapaz de apresentar sequer uma plataforma de reformas, a esquerda perde espaços e parece não ter se dado conta das dimensões da crise em curso e de suas possibilidades trágicas. O risco é a fragmentação total e a passagem ao segundo turno de Bolsonaro e Alckmin.

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