Quais suas evidências?

Há um documentário, já foi exibido algumas vezes pelo canal GNT, que divulga os resultados de um amplo estudo a respeito da homossexualidade no reino animal. Não guardei o nome do documentário e, por isso, não tenho sua referência, mas, para além do estudo, o que me importa aqui é apenas o episódio em que o pesquisador resolve mostrar seu trabalho para uma baronesa conservadora que, ao longo de toda sua vida, havia repetido na Câmara dos Lordes que “a homossexualidade não é um comportamento natural”. A pesquisa mostrava exatamente o contrário e com evidências colhidas em centenas de espécies animais. Há então a cena do encontro do pesquisador e da baronesa em que ele afirma que as posições da vetusta senhora estavam equivocadas. Nesse momento, a câmera foca no rosto crispado da baronesa que pergunta – What your evidence? (Quais suas provas?).  A pergunta revela muito sobre a cultura britânica e assinala um abismo a ser superado no Brasil. Quem entre nós, diante da diferença de opiniões, pergunta pelas evidências?  Quem, no sectário debate político, por exemplo, procura fundamentar suas posições a partir de resultados colhidos em estudos com base empírica?  O tema, é claro, diz respeito ao significado que emprestamos às ciências e ao papel avassalador desempenhado pelas ideologias.

No Brasil, o desprezo pelas evidências e o gosto pelo discurso está no âmago de nossas tradições. Uma maldição materializada em grande parte dos textos jornalísticos, nos comentários nos meios de comunicação social e, como regra, nas opiniões que as pessoas reproduzem acriticamente. Nossos governantes, parlamentares e magistrados e os que desempenham funções públicas relevantes dificilmente demandam estudos científicos para embasar duas decisões. O que ocorre é que decidem, quase sempre, sem diagnósticos sérios. Os resultados são, com frequência, políticas públicas desastrosas que, não raro, agravam os problemas que pretendiam solucionar. Por força do hábito, os gestores também não demandam avaliação externa competente sobre os resultados de suas iniciativas, o que significa que políticas e abordagens ineficientes ou mesmo disfuncionais tendem a ser mantidas por décadas, sustentadas com base na popularidade dos discursos e dos preconceitos que as amparam. Esse é, aliás, um dos motivos pelos quais os recursos públicos são desperdiçados no Brasil. A corrupção desvia um monte; o outro monte, talvez maior, é drenado pela incompetência.

O problema é tão amplo que atinge em cheio também o percurso das ciências sociais no Brasil. Ainda hoje, nas nossas universidades, é possível encontrar quem entenda que estudos experimentais ou quase-experimentais, com dados quantitativos, sejam a tradução de uma “herança positivista”. Não por acaso, a esmagadora maioria dos trabalhos acadêmicos lida apenas com dados qualitativos e reproduz simplesmente o que as referências teóricas escolhidas já afirmaram.  Os ataques aos “métodos quantitativos”, na verdade, revelam uma distância impressionante da própria ciência, abandonada solenemente em troca da “arte” interpretativa que haveria de caracteriza os estudos qualitativos. Por certo que toda base de dados, colhida por qualquer estudo, deve ser interpretada e que, portanto, não se pode, ingenuamente, prescindir do sujeito quando almejamos a objetividade. Isso, entretanto, é muito diverso de dispensar a validação objetiva, que só pode ser alcançada com o tratamento de dados quantitativos e de relações causais mensuráveis. Aqui, o “Judas positivista” é mesmo o espantalho do qual nos falou Ignácio Cano, cuja função é proteger certezas medíocres e salvaguardar os preceitos ideológicos de qualquer questionamento.

Em verdade, as técnicas quantitativas operam mediante termos e procedimentos padronizados, o que facilita o controle dos resultados e mesmo sua contestação. Além disso, elas são simplesmente indispensáveis sempre que tratamos de causalidade agregada. Ao mesmo tempo, nenhuma mensuração, por mais sofisticada que seja, poderá dispensar as interpretações de sentido que são tipicamente reivindicadas pelas análises qualitativas. Assim, onde a ideologia vê contradição, o que existe é complementariedade.

É fundamental despertar o senso crítico de nossos alunos, estimulando a familiaridade com a literatura científica. Um exercício interessante é o de oferecer-lhes uma lista de afirmações bastante comuns fundadas em preconceitos e solicitar que eles se manifestem a respeito – concordando ou discordando – desde que ofereçam evidências científicas em apoio as suas opiniões. Para tanto, terão alguns dias para pesquisar exclusivamente em revistas científicas. O desafio permite que vários alunos percebam que suas intuições não encontram respaldo em estudos sérios. Mais, possibilita que descubram que as evidências científicas disponíveis amparam, frequentemente, posições diametralmente opostas àquelas que compartilham.

Dessa surpresa pode emergir uma cultura distinta, capaz de valorizar as evidências e recusar as afirmações não demonstráveis; capaz de identificar estudos sérios e separá-los dos discursos manipuladores. Mais ou menos a diferença que separa os comentários do Facebook do conteúdo da Biblioteca Britânica.

Marcos Rolim – Extra Classe , novembro de 2016.

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