RENATO RUSSO

A morte de Renato Russo, o líder do mais interessante e poético grupo de rock do Brasil, deixa uma lacuna imensa. Com uma sensibilidade invulgar para os problemas de seu tempo, Renato fez das canções do Legião Urbana um manifesto apaixonado em defesa da vida, do amor, da tolerância e dos Direitos Humanos. Sua trajetória como poeta e band leader foi marcada, também, pela autenticidade. Renato Russo escrevia e cantava o que queria e do jeito que gostava. A padronização sugerida pela indústria cultural e os apelos comerciais jamais tiveram qualquer chance com ele. Uma de suas músicas -“Faroeste Caboclo” – em que descreve o caminho de um anti-herói -“Santo Cristo”- possui uma letra tão longa que seus produtores desaconselharam a gravação. A música saiu do jeito que Renato queria e é, ainda hoje, um dos maiores sucessos do grupo.

Polêmico, irreverente, apaixonado, solidário, Renato tornou pública sua predileção homossexual em muitas entrevistas e mesmo em alguns de seus trabalhos. Mais do que isso, confessou lutar fortemente contra a dependência química, relatando seu esforço em liberar-se do consumo de quaisquer drogas, fossem elas lícitas ou não. Foi o que bastou para que os filisteus de plantão afiassem seus caninos. Quando de sua morte, no momento em que todos nós estávamos sob o impacto da triste notícia, senhores como Rogério Mendelsky e Adroaldo Streck modularam seus preconceitos em comentários cuja “estrutura” foi mais ou menos a seguinte: como milhões de jovens podem se espelhar na trajetória de um “drogado e homossexual”?

Não deixa de ser irônico que Renato Russo tenha lutado tanto contra a intolerância e os preconceitos e que sua própria morte tenha permitido a expressão tão crua dessas características propositoras de violência e exclusão. Impressionante, também, a facilidade com que determinados profissionais da imprensa colocam-se a serviço da imbecilidade reproduzindo os sentimentos mais beligerantes diante de tudo aquilo que se afasta do padrão “homem, branco, heterossexual, pai de família, religioso, conformado”. Afinal, quem delegou àqueles sarcófagos ideológicos a condição de presbíteros morais ou de juízes das condutas privadas? As vidas e as obras de Freud, Van Gogh ou Sartre valem menos por conta das experiências com drogas que tiveram? Oscar Wilde, Proust, Frida Callo, André Gide, Pasolini, Virgínia Wolf, entre tantos outros, são, por ventura, menores por conta de suas experiências homossexuais? Diferentemente, podemos afirmar que Renato Russo se foi e que o mundo ficou pior por conta dessa ausência. Ao lado de todos nós, hoje, há um anjo triste e, ao fundo, uma pergunta permanece: “Que país é esse?”

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