SEIOS

Estamos em pleno verão e penso que seria importante homenagear os bravos policiais militares do RJ que resolveram prender aquela pacata senhora que bronzeava seus seios na praia, na companhia de seu marido. Quem viu a cena da prisão pela TV deve ter ficado com uma sensação estranha: afinal, qual o crime cometido?  Os policiais nada tinham de mais importante para fazer?  Quem se incomodava com os peitos descobertos, afinal? Bueno, ocorre que foi só a matéria ter ido ao ar para que a opinião pública reagisse indignada. Reside nessa reação a certeza de que nem tudo está perdido no Brasil. O prefeito do Rio determinou, então, que as praias cariocas constituem região “liberada” para o topless. O governo da Bahia, aproveitando-se do momento para sua campanha de atração turística, saiu-se com um anúncio onde afirmava que lá o negócio era permitido desde 1500, etc. Genial. É preciso, antes de tudo, firmar uma posição de princípio com respeito à intervenção do Estado sobre determinadas matérias que concernem aos costumes e desejar, sempre, que esta intervenção não exista. Desde que a exposição do corpo das mulheres, destacadamente dos seus seios, tornou-se comum na sociedade brasileira; desde que, no carnaval, já não seria concebível sequer um desfile sem seios à mostra; parece evidente que a exibição desta parte do corpo feminino já não poderia encontrar qualquer reação moral que lhe atribuísse conteúdo ofensivo – ainda mais se estamos na praia. Pois graças ao ato de arbítrio daqueles policiais – seguramente a mando de um superior – flagrado pela imprensa podemos, hoje, concluir que um espaço a mais de liberdade foi conquistado pelas mulheres, o que não deixa de ser alvissareiro em um país marcado pelo conservadorismo e chegadinho em uma hipocrisia. Há pouco mais de 30 anos, quando duas meninas saíram em plena Rua da Praia em Porto Alegre vestindo mini-saias, formou-se uma verdadeira confusão. Uma turba de machos incrédulos e inconvenientes alinharam-se em romaria acompanhando o deslocamento das duas que, pasmem, foram detidas por atentarem contra a “moral e os bons costumes”. Escândalos desse tipo costumam ser resolvidos com o tempo e o que se percebe, depois, é que escandalosa mesma foi a reação dos escandalizados. Portanto, benvindos sejam os seios. Todos.  Os que permanecerão encobertos pelos diversos biquínis e maiôs insinuando mistério ou recato e os que se movimentarão finalmente libertos à procura do sol em nossos olhos; os belos e os nem tanto; os naturais e os refeitos pela medicina estética, os que contrastarem a gravidade da lei dos homens e, também, os que desafiam a lei da gravidade. Talvez tenhamos diante da experiência do topless no Brasil uma oportunidade a mais para sublinhar que a imoralidade jamais poderia ser identificada, simplesmente, com a exposição do corpo. Afinal, o que é belo só pode existir como tal pelo olhar do outro. A reação moral dos brasileiros deveria se concentrar em outros temas. Afinal, “pouca vergonha” neste país são a  fome, a violência, o desemprego e a corrupção.

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