SHINE

Não se trata do cinema, mas da vida. Não faço ideia quantos entre os estimados leitores já tiveram a oportunidade de assistir ao filme Shine. Em nome dos que ainda não puderam assistir, então, escrevo este texto, na viva esperança que o assistam. Não estamos, tão somente, a falar de um dos melhores filmes dos últimos anos, mas, sobretudo, discorrendo sobre um enredo fascinante que repõe, entre nós, o tema da loucura.

O personagem central, David, é, desde muito cedo, iniciado pelo pai ao piano. Músico frustrado e extremamente autoritário, o pai exerce sobre David uma influência destrutiva. Toda a primeira parte do filme se passa na Austrália, onde a família, de origem judia, levava uma vida bastante humilde. O menino, não obstante todas as dificuldades impostas pelo pai, revela dotes especiais e passa a despertar a atenção das principais escolas de música europeias e americanas. Após um período de aperfeiçoamento em Londres, David já é considerado um gênio por seu professor. Sobrevêm, então, a primeira grave crise psíquica ao final de um concerto. David passa a conviver em Hospitais Psiquiátricos e demonstra uma perturbação mental especialmente grave do tipo esquizofrênica. O início do seu “caminho de volta”, é claro, está associado ao piano, ainda que seus médicos o tivessem proibido de tocar. A parte final do filme é um eloquente testemunho do papel decisivo dos investimentos afetivos na relação com pessoas portadoras de sofrimento psíquico e é, sem dúvida, uma das mais emocionantes passagens do cinema contemporâneo.

Muito já se disse e escreveu sobre a loucura. Talvez, ela seja um atalho, um jogo de espelhos onde o infinito se ausentou. Todas as formas de loucura, entretanto, descrevem um grito deslizando sobre um vidro sem ângulo e sem superfície, suspenso, sem atritos e sem sinais. A loucura é o somatório de todos os baldios, é o vazio superlotando-se de vazios. E se é preciso recorrer às metáforas para descrevê-la, talvez seja porque a poesia é a loucura das palavras. Ocorre que é raro encontrar, nos dias de hoje, quem esteja disposto a construir um humano contato com a loucura e seus silêncios, quem revele, nas próprias relações terapêuticas, a ousadia de procurar ouvir a desrazão como um fenômeno sempre irredutível às fórmulas e aos diagnósticos. Em nome da “normalidade”, David foi proibido de tocar piano; da mesma forma, Van Gogh foi enclausurado com o sol preso em sua pintura. Van Gogh, que necessitava só de tintas, alimentos e corvos sobre trigais, nos deixou um mundo em trepidação e ruelas que avançam em direção as nossas cabeças. Pressionado, não cedeu aos padrões estéticos “normais” e persistiu trabalhando a cor que não existia contra a densa chuva azul de seu tempo. Por isso, Van Gogh passou como a chuva que não passa. Shine, o filme, nos permite lembrar o destino de tantos outros seres humanos, geniais ou não, que poderiam “brilhar” também, ainda que isso significasse apenas viver com dignidade. Seres humanos que passaram e dos quais jamais teremos qualquer notícia.

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