Símbolos

O Brasil tem um novo governo e, como diria Millôr, um grande passado pela frente. Os contornos da agenda política começaram a se esboçar quando da posse interina no Palácio do Planalto. Cercado por parlamentares e novos ministros, Temer pareceu à vontade entre engomados e citados na Lava Jato. Na oportunidade, anunciou, sob aplausos, o símbolo do novo governo com as palavras “Ordem e Progresso”. Símbolos são importantes, como se sabe. A escolha pela inscrição positivista de nossa bandeira, expressão de um ideal do século XIX, talvez ofereça uma referência sobre o tempo em que vivem nossas lideranças (o que vale, aliás, para direita e esquerda). Digo talvez, porque Temer não é um seguidor de Augusto Comte. Se fosse, não teria afagado a religião em seu discurso, gravado um vídeo com Marco Feliciano pedindo orações, nem recebido a benção de Silas Malafaia no Palácio Jaburu, em agenda oficial. Ambos os pastores asseguram que Temer não é “satanista”, uma pauta que se insere no âmago da Idade Média. Há noções distintas a respeito de ordem e progresso. A ordem democrática, por exemplo, pressupõe o dissenso, não o sagrado, e exige argumentos, não verdades reveladas. O espaço público não pode ser colonizado pela noção de verdade, porque isso seria o mesmo que impedir o debate e inviabilizar políticas públicas com base em evidências. Por não compreender o que isso significa, temos um ministro da Saúde que, diante da polêmica do uso da fosfoetanolamina, a chamada “pílula do câncer”, declara que “a fé move montanhas”.

O novo governo é uma extensão do Congresso Nacional, não da Nação; o que, nas condições atuais, significa um casamento com o fisiologismo, a corrupção e a ignorância. Neste particular, a escolha do deputado André Moura (PSC/SE) como líder do governo na Câmara parece reveladora: sua excelência, homem de confiança de Eduardo Cunha, foi condenado em Sergipe por improbidade administrativa, é réu em três processos no STF por desvio de dinheiro público e responde a pelo menos outros três processos, dois por corrupção e um por homicídio; um símbolo e tanto.

A ausência de mulheres e negros no ministério formam dois outros símbolos. A resposta oficial de que o critério empregado foi o da “competência” é risível diante de uma equipe que, à exceção de Henrique Meirelles e José Serra, é uma reunião de políticos medíocres e suspeitos, alguns deles já com importantes desserviços prestados à Nação nos governos Lula e Dilma.

Ao contrário do que ocorreu nos governos Dilma e Lula, Temer terá uma oposição consistente. Os movimentos sociais e boa parte dos intelectuais e ativistas de esquerda que se mantiveram em silêncio enquanto o governo Dilma bancava um etnocídio por Belo Monte; que nunca denunciaram a omissão do governo frente à escalada da criminalidade e da violência; que mudaram de assunto diante da ação das quadrilhas que se alojaram no governo e que aceitaram retrocessos variados em tantas políticas públicas agora serão vigilantes, assertivos e implacáveis. Há que aprecie este jogo e o pratique com desenvoltura.  O discurso de que há golpe, neste particular, cumpre um papel central como estratégia manipulatória e reforça na cena política o “jogo de soma zero”, expressão que, na teoria dos jogos, significa que o ganho de um expressa necessariamente a perda de outro. Neste processo, os antagonistas se encapsulam em suas estratégias de Poder e produzem, para efeito público, discursos para debilitar o adversário e reforçar as respectivas trincheiras. Lidam, assim, com as palavras como quem manipula munição e promovem tudo, menos a reflexão. Não por acaso, o PT não produzirá uma autocrítica a respeito dos seus erros. Um balanço verdadeiro e doloroso sobre o processo que conduziu não apenas a uma derrota política, mas à desmoralização histórica da esquerda brasileira será, agora, impedido pela mobilização “contra os golpistas”. Conveniente e compreensível. Os entrincheirados, sabe-se, não têm tempo para duvidar. Há um inimigo intolerável e uma guerra a ser travada, não razões para o pensamento. Nesse contexto, nossos réus são nomeados “guerreiros do povo brasileiro”. Ahan.

Marcos Rolim, Zero Hora, 21 de maio de 2016.

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