SOBRE O “BULLYING”

O fenômeno designado pela expressão inglesa bullying (de “bully”, “valentão”) segue sendo desconhecido para a maioria dos educadores no Brasil. Com a expressão, o que se procura identificar são as práticas violentas que ocorrem entre pessoas cujas interações se dão fora de âmbito hierárquico. Bullying seria, assim, uma forma de violência interpessoal, de imposição deliberada e sistemática de sofrimento físico ou psicológico, produzida entre pares. Tal comportamento toma várias formas, da violência física às ameaças verbais, da intimidação à exclusão.

No começo, o problema despertou a atenção das autoridades pela correlação entre bullying e casos de suicídio de crianças e adolescentes. Nos Estados Unidos, a tragédia de Columbine, quando dois adolescentes, vítimas de bullying, mataram 14 colegas e um professor, chamou, pela primeira vez, a atenção para o problema. Tragédias do tipo não são fenômenos isolados. No Brasil, já há registros de fatos semelhantes, embora de menores repercussões. Em janeiro de 2003, por exemplo, o jovem Edimar Aparecido Freitas invadiu a escola onde havia estudado, em Taiúva -SP, com um revólver na mão. Ele feriu gravemente cinco alunos e, em seguida, matou-se. Obeso na infância e adolescência, ele era motivo de piada entre os colegas. A preocupação com o bullying tem se justificado, no mais, como parte de estratégias de prevenção ao crime e à violência entre adultos. Nos EUA, sabe-se que cerca de 60% dos garotos que praticam bullying são condenados por pelo menos um crime até a idade de 24 anos. Mais dramático, ainda, sabe-se que 40% deles terão três ou mais condenações quando alcançarem essa idade.

Nos espaços escolares, especialmente, as práticas de bullying costumam ser invisíveis. Isto significa afirmar que os adultos não percebem o processo de vitimização rotineira. Tal característica torna a situação vivida pelas vítimas, notadamente quando crianças ou adolescentes, muito mais grave, porque elas intuem que o que está acontecendo com elas só ocorre na exata medida da desatenção dos adultos. Por conta de seus valores culturais e de uma insensibilidade compartilhada institucionalmente, professores e membros das direções das escolas têm como “inofensivas” muitas das brincadeiras organizadas pelos alunos, entre elas a de atribuir apelidos estigmatizantes. Os apelidos, como se sabe, procuram estabelecer uma nova identidade às pessoas, destacando alguma característica tomada como particularmente significativa. Muito raramente, entretanto, tal escolha seleciona virtudes. Como regra, apelidos destacam o que se imagina ser uma deficiência, ou uma diferença tomada como desvantajosa, ou desonrosa, ou, simplesmente, feia. Quase sempre, há algo que se projeta como ridículo ou humilhante na identidade atribuída ao apelidado. Assim, se faz “graça” ao se promover um rótulo pelo qual se deprecia o outro.

Vítimas de bullying têm sua auto-estima rebaixada, sofrem de ansiedade e depressão. O que termina sendo funcional ao mau desempenho escolar, à baixa freqüência e à evasão. O bullying pode se afirmar, também, de forma silenciosa e muito mais sutil, como pela exclusão, por exemplo. Racismo e homofobia oferecem duas grandes vertentes desse tipo. O mesmo se pode dizer dos preconceitos de natureza socioeconômica que costumam isolar os mais pobres de todos os grupos como se estes integrassem uma casta de “intocáveis”, como na Índia.

Bullying é violência que precisa ser enfrentada logo com políticas públicas específicas. Mas, para isso, é preciso estudar o fenômeno, identificá-lo concretamente em nossas escolas, e debater sobre ele. Com a palavra, os educadores e os gestores da área.

Marcos Rolim – Zero Hora, 17 de setembro de 2006.

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