SOBRE O INTOLERÁVEL

Todo projeto para uma vida que valha a pena ser vivida envolve um limite para o convívio social. Aquilo que, por diferentes razões, nos parece intolerável – e que, por isso, excluímos do respeito à diferença – é conformado culturalmente. Nos Estados laicos, o intolerável é fixado pela lei penal. Nas teocracias, entretanto, esse limite é definido pela fé. A separação entre Estado e religião – a laicidade – é fenômeno moderno que pressupõe a convivência entre crenças e descrenças. Entre nós, o intolerável é matéria terrena, portanto, circunscrita às disputas políticas cuja substância é o debate público. Nesse espaço criado pelos humanos, e só por eles, os argumentos devem transitar livremente e até mesmo a recusa ao pensamento tem seus direitos. O que importa reter é que nada é mais estranho às democracias modernas que a ideia de “verdade”. Pela simples razão de que a verdade a que podemos chegar é sempre a expressão de um compromisso que se sabe provisório, porque modificado na história, não raro, radicalmente. O que define, aliás, não apenas o espaço da pólis, mas o percurso mais importante do conhecimento, aquele construído pela ciência. A verdade científica, afinal, é aquela que existe “na temperatura de sua própria destruição” (Morin).

Nos fundamentalismos (em todos eles, bem entendido), a verdade é concebida como “revelação”. Entre os muçulmanos, o pressuposto aparece em estado puro na “inlibração”, palavra que designa a incorporação de Deus em livro incriado; que existiria desde a eternidade. No Alcorão está a palavra de Deus (em árabe, claro). Islã, não casualmente, significa “submissão”. Nessa circunstância, criar é ato imprudente e uma charge pode ser ofensa a tratar com fuzis. Os que “não são Charlie” e pedem “respeito” às religiões não se dão conta de que respeito em falta é exatamente aquele desconhecido pelos fundamentalistas. Em nossa ordem jurídica, assim como na França, a blasfêmia é um direito. Ainda bem. Não fosse isso, estaríamos queimando bruxas e torturando hereges até hoje. Os jihadistas escolheram o intolerável, mesmo sem vinganças clamando dos céus como na Nigéria. Por isso, não se trata de “politizar” o fenômeno do terrorismo, estigmatizando muçulmanos (como o faz a extrema-direita europeia), ou apresentando-o como um resultado da opressão (como o repete determinada esquerda). O desafio é o de efetivar o pacto dos direitos fundamentais, para sociedades mais justas, reconhecendo o intolerável como um limite para além do qual as democracias reservam vagas em suas prisões.

 

Marcos Rolim – Zero Hora, 18 de janeiro de 2015.

Posts relacionados