Sobre os que têm a visão

O Brasil foi aprisionado pelas frases feitas e pelos chavões. Não sei em que momento o País foi sentenciado, mas intuo que a pena seja gravíssima. Funciona mais ou menos assim: primeiramente, as pessoas ficam proibidas de expressar opiniões autênticas e não podem mais se embasar em evidências empíricas. Elas devem repetir o que os membros do seu grupo dizem e reforçar todas as crenças e pressupostos que transitam em sua trincheira. Ato contínuo, as visões independentes são declaradas suspeitas e todo pensamento genuíno passa a ser castigado. Alguns entre os oficiais sabem que as coisas são muito mais complexas e que há nuances reveladoras e erros seríssimos que eles produziram e referendaram, mas entendem que o reconhecimento da complexidade e a autocrítica verdadeira são impensáveis na guerra. Que a política seja concebida como “guerra” é coisa que não lhes inquieta. Para alguns, porque esse é mesmo o seu paradigma; para outros, porque lhes é conveniente. Ambos sabem, afinal, que a lógica do confronto e a denúncia da ameaça iminente são recursos manipulatórios eficazes.

Na moldura da irreflexão, o mundo precisa ser espremido entre dois exércitos inimigos, entre “nós” e “eles”. Tudo aquilo que favorece meu grupo é bom; o que valoriza meu inimigo é mau. As pessoas, aliás, só cabem entre aquelas que são “do bem” e as outras, que encarnam diferentes representações da maldade e da degeneração. Quando Judith Butler foi agredida por um grupo de fundamentalistas de extrema direita no aeroporto de Congonhas (SP), a palavra preferida pelos agressores foi “assassina”. Antes disso, o grupo, incomodado por aquilo que denominam “ideologia de gênero”, já havia queimado o boneco de uma bruxa que, é claro, representava a filósofa. Houve um tempo em que se queimaram “bruxas” de verdade e o ritual simbólico de agora se filia àquela tradição no gosto pelo dogma e no reforço à misoginia.

Pessoas que se conduzem dessa maneira são mobilizadas por um conjunto de noções simplificadas que conformam uma “visão de mundo”, uma espécie de distorção cognitiva pela qual se projeta uma realidade muito diferente do mundo real. As ideologias, no sentido com que Marx empregou esse termo, vale dizer, como formas discursivas de encobrimento e mistificação, oferecem “visões” do tipo. As pessoas que aderem a essas plataformas discursivas terminam sendo possuídas por elas, de um modo tal que se tornam imunes ao mundo. O que ocorre já não pode mais sensibilizá-las, porque elas portam a “visão” que o mundo não tem.

O problema não diz respeito apenas às posições situadas à direita ou ao fundamentalismo religioso. Boa parte das concepções à esquerda, ou, pelo menos, que se reivindicam de esquerda, está mergulhada em trevas conceituais aparentadas. Lembram da passagem, pelo Brasil, em 2013, da blogueira Yoani Sánchez, dissidente do regime cubano? Pois é, ela foi insultada por dezenas de militantes de esquerda nos saguões dos aeroportos de Recife e Salvador (sim, a esquerda brasileira parece também ter o gosto por fiascos em aeroportos). A apresentação de um documentário na cidade de Feira de Santana (BA), onde Yoani faria um debate, foi cancelada, porque alguns jovens comunistas, com as veias de suas gargantas inchadas, gritavam sem parar em favor da ditadura de sua estimação. Eduardo Suplicy foi um dos promotores da vinda de Yoani ao Brasil e se solidarizou com ela. Suplicy não está mais no Parlamento. Na direção do PT, houve quem, na época, afirmasse que o ex-senador colocava o PT em “situações delicadas” e que trazer a blogueira dissidente era um desses momentos. Sabemos, agora, que havia outras situações verdadeiramente delicadas que, entretanto, não chamavam a atenção do Partido. Impressão minha, ou seguem não importando?

Marcos Rolim, Sul 21, 1º de dezembro de 2017.

Posts relacionados