SUICÍDIOS

Entre os anos 1989 e 1998, os suicídios no Brasil aumentaram 56,9%. Esse crescimento é maior do que a evolução na taxa de homicídios no mesmo período (45,5%) e maior que a taxa de mortes em acidentes de trânsito que cresceu 13,7%. Os dados são do “Mapa da Violência II” um impressionante estudo da UNESCO. O Rio Grande do Sul possui as taxas mais altas de suicídio no Brasil, 11 para cada grupo de 100 mil habitantes e Porto Alegre é a capital com maior taxa de suicídios no país (11,9/ 100 mil).

A taxa brasileira de suicídios é de 4,9 para cada grupo de 100 mil habitantes o que nos coloca na trigésima terceira posição no mundo. As taxas mais altas estão na Estônia (38,0), Rússia (37,9), Hungria (32,1) Finlândia (24,3), Croácia (20,8), França (19,3), Áustria (19,3), Japão (18,8), Guatemala (18,3) e Bulgária (18,2). Observe-se que o fenômeno nada tem a ver com carecimentos materiais. O suicídio é mais comum em nações ricas e ocorre com mais frequência nas classes médias. Como se sabe, os suicídios foram extremamente raros nos campos de concentração, o que reforça a evidência de que as condições exteriores – mesmo as mais brutais – não explicam o fenômeno.

Na civilização romana a morte em si não tinha importância. Mas a maneira de morrer – digna e no momento certo – importava muitíssimo. Já para os primeiros cristãos, a morte equivalia à libertação. Tanto mais a doutrina insistia em que a vida era um “vale de lágrimas e pecados”, mais a morte aparecia como um atalho ao paraíso. Foi graças a Agostinho que essa perspectiva foi alterada. Nos séculos V e VI os Concílios de Orléans , Braga e Toledo proibiram as honras fúnebres aos suicidas e determinaram que até mesmo aquele que não tivesse obtido sucesso em uma tentativa de suicídio deveria ser excomungado. Nessa reviravolta o suicídio passou a ser considerado um crime, o que poderia implicar na condenação à morte dos que fracassavam. Os familiares dos suicidas, por seu turno, foram deserdados e vilipendiados enfrentando humilhações sem fim. Foi preciso esperar pela Renascença para que a humanidade dos suicidas fosse reconhecida e pelo romantismo para que se forjasse em torno do tema uma determinada áurea de respeitabilidade.

Desde o estudo pioneiro de Dürkhein sabemos que o suicídio é -modernamente – um ato desesperado. Um gesto que se tornou mais fácil em nossa época. Um dos personagens de Dostoiévski, Kirilov, afirma que só existem duas razões pelas quais as pessoas não se matam: a dor e o medo do além. Ao que tudo indica, nos livramos já dessas razões. Quando Silvia Plath vedou sua cozinha em Londres e abriu o gás ou quando Pavese tomou um punhado de pílulas para dormir sabiam que não sentiriam dor alguma. Essas pessoas também não mudariam de idéia com um sermão. O que pessoas com essa disposição precisam é de ajuda. Uma ajuda que vem sendo oferecida, no Brasil, por uma entidade chamada CVV, Centro de Valorização da Vida. Ano passado, o CVV recebeu mais de 900 mil ligações e todo o seu trabalho é feito por voluntários. Junto à Anatel, encaminhei a solicitação de que o CVV possa ter um só número telefônico para todo o Brasil, o que facilitaria a sua divulgação. No RS o número do CVV é 051-231.6111. Enquanto aguardamos a resposta da agência, não seria demais registrar aqui a excelência de um trabalho anônimo que vem salvando milhares de vidas no Brasil.

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