Todo dia a mesma noite

O livro da jornalista Daniela Arbex, “Todo dia a mesma noite: a história não contada da boate Kiss” (Intrínseca, 248 pág.) é um dos mais tristes que já li. Independentemente dessa matéria espessa que conforma o desespero, trata-se de um texto imprescindível. Primeiro, para que o ocorrido não se perca pelo esquecimento, o que seria uma espécie de segunda morte para todos os envolvidos; mas, ainda mais importante do que isso, para que nada como aquela tragédia se repita.

Daniela Arbex não se detém no que há de imediato nas coisas. Seu texto rasga a história como quem corta na pele. É jornalismo essencialmente, mas nem se parece, porque o jornalismo que se pratica no Brasil – com as honrosas e conhecidas exceções – se delicia com o deslizar sobre as coisas.

Antes desse livro, Daniela já havia nos contado sobre a tragédia do modelo manicomial no Brasil em “Holocausto brasileiro“. Depois, ela descobriu a história de Milton Soares de Castro, casualmente também um filho de Santa Maria, assassinado pela ditadura em 1967, aos 26 anos, na obra “Cova 312”. São livros também lancinantes, que evocam a memória de uma violência que acompanha o Brasil como uma sombra, desde seu início.

Ao tratar da Kiss, Daniela ouviu muitas pessoas, mas especialmente os familiares, os sobreviventes e os profissionais que se viram no meio de uma situação que jamais poderiam ter imaginado viver. O resultado diz muito sobre todos nós, sobre nossos medos, sobre o sentido de viver em um país cercado por perigos por todos os lados, a começar por um Poder Público que se exerce, muito frequentemente, contra o público.

Não há juízos no livro, nem adjetivos que ocupem o lugar das histórias assim como elas puderam ser lembradas pelas pessoas. Há silêncios que se prolongam para dentro da gente, há perguntas que travam na garganta; há surpresas que nos atormentam.  Esse é um livro que é impossível ler sem que algo, dentro dos leitores, se desloque profundamente. Devemos lê-lo para compreender melhor o que ocorreu e o que falta fazer; para que seja possível perceber, sobretudo, o sentido que importa resgatar de uma dor tão ampla e radical.

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