Tragédia na Venezuela poderá ser pior

Tragédia na Venezuela poderá ser pior

Mais de 3,4 milhões de venezuelanos emigraram por conta da radicalidade da crise econômica, social e política, o que significa mais de 10% da população. Os números seguem crescendo, porque o povo não vislumbra perspectivas. Como assinalou o jornalista Joaquin Sánchez Mariño, no texto “Siete días en Venezuela: crônica urgente de um Pueblo herido de incertitumbre”, incerteza é a palavra que define o país. Apenas o fenômeno da emigração em massa já seria sinal de uma imensa tragédia e motivo suficiente para que toda a instituição política do País fosse repensada. O quadro real envolve 90% da população vivendo na pobreza, uma inflação de 1,3 milhão por cento ao ano, a total desorganização econômica e um desabastecimento radical com a disseminação da fome, dos suicídios e da violência criminal. A Venezuela tem, atualmente, a maior taxa de homicídios da América Latina (81,4 homicídios para cada cem mil habitantes), o que a transforma em um dos países mais violento do mundo (no Brasil, lembrando, onde a violência alcançou proporções epidêmicas, a taxa de homicídios é de 30,3 por cem mil). Há regiões da Venezuela, como Aragua e Miranda, com taxas de homicídios de 168 e 124 por cem mil, respectivamente, verdadeiras zonas de guerra. Do total de homicídios na Venezuela, aproximadamente 1/3 é cometido pelas polícias, o que dá conta da alarmante dimensão da violência estatal.

Os níveis de tensão política têm aumentado na Venezuela, o que estimula a violência ao invés da negociação. Diante do caos em curso, o melhor seria que o regime de Maduro recuasse, estabelecendo algum compromisso com a oposição e viabilizando uma transição com eleições livres. Sem isso, Maduro tende a dobrar a aposta na repressão e no isolamento, persistindo no caminho de entrincheirar-se em seu próprio discurso. A primeira opção daria ao chavismo a possibilidade de se reformar; a segunda aprofundará a crise humanitária e poderá implicará na deposição de Maduro e em um cenário imprevisível de conflitos, entre eles a guerra civil.

O mais provável é que Maduro não recue um milímetro. Pessoas colonizadas por uma ideologia têm maior facilidade de situar suas próprias razões acima das desgraças vividas pelos outros. Para repensar radicalmente uma estratégia política é preciso, no mais, ter a humildade necessária para reconhecer erros e apostar em uma disputa política que se projeta para as próximas décadas. Maduro poderia ser desalojado por uma mudança na posição das Forças Armadas, ou pela retirada do apoio político e econômico que recebe da Índia, da Rússia e da China. Após as restrições ao petróleo venezuelano, impostas pelos EUA, aliás, a Índia passou a ser o maior comprador, como de pode ver no gráfico abaixo.

As hipóteses de uma “virada” nas Forças Armadas ou do abandono por parte dos apoiadores internacionais, entretanto, não parecem prováveis. Os militares venezuelanos possuem vários interesses que os vinculam ao regime, incluindo negócios milionários e atuação miliciana em mercados clandestinos. Há, ainda, o temor de que um novo governo acerte contas com os responsáveis pelas violações aos Direitos Humanos e pelos crimes de lesa-humanidade praticados pelo chavismo.

A complexidade do quadro parece exigir medidas excepcionais que evitem o prolongamento da crise. Por isso, para o professor de relações internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, se deveria oferecer a Maduro e aos comandantes militares a anistia e a permissão para que deixassem o país. O pior cenário, segundo ele, seria um conflito similar ao vivido pela Síria, onde a Rússia também joga um papel chave. Se as Forças Armadas venezuelanas se dividirem, parte mantendo sua lealdade a Maduro, parte apoiando Guaidó, o país poderia chegar à guerra civil, argumenta Stuenkel, com as potências externas financiando as partes em uma espécie de “guerra por procuração” (leia a entrevista em What’s the best (and worst) possible outcome for Venezuela?)

Esse cenário parece mais provável do que uma intervenção militar externa e interessaria a Trump, mais preocupado em evitar que a China alcance uma posição estratégica de controle do petróleo venezuelano. Nessa hipótese, o Brasil correria o risco de ser envolvido em uma aventura estúpida, o que parece ser o desejo de alguns membros do governo, a começar pelo lunático que Bolsonaro nomeou para as Relações Exteriores.

O Brasil já perdeu uma posição que seria naturalmente sua no campo diplomático, a de artífice de uma solução negociada para a crise venezuelana, o que permitiu que México e Uruguai se projetassem à condição de interlocutores. O senhor Ernesto Araújo, nosso chanceler, orienta suas ações pela luta contra o “globalismo” que, segundo ele, é “a globalização econômica que passou a ser orientada pelo marxismo cultural”. Chamado por Bolsonaro de “grande intelectual” e indicado sob o argumento de que o Brasil precisa de uma política externa “sem ideologia”, Araújo já alertou que “um novo eixo socialista latino-americano, sob os auspícios da China maoísta (….) dominará o mundo”. A afirmação é tão ridícula que não vale a pena comentá-la, salvo para dizer que, se houver uma intervenção militar dos EUA na Venezuela (ou financiada pelos EUA), esse será o caminho natural para que a América Latina se relacione mais amplamente com a China.

A conduta do ministro na crise venezuelana rompe com uma tradição centenária do Itamaraty e chegou a alertar os próprios comandantes militares brasileiros para a necessidade de uma moderação. Não por acaso, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, acompanhou o chanceler no encontro do Grupo de Lima esta semana. O fato é que os pronunciamentos beligerantes do ministro das Relações Exteriores, assim como as desastradas falas do presidente que ainda não acordou da guerra fria e de outros integrantes do primeiro escalão, produzem danos para além da vergonha reflexa que sentimos, como brasileiros.

Posts relacionados