UM MUNDO INTEIRO

Após a II Guerra, se descobriu, entre as paredes dos Campos de Concentração, bilhetes que haviam sido escondidos pelos presos. Os condenados deixaram poemas naquelas fábricas de morte; registros surpreendentes de esperança e amor. Afirmavam, assim, longe da vigilância dos carcereiros, aquilo que se lhes pretendeu negar: sua condição radicalmente humana. Segunda-feira, equipe de manutenção que procurava consertar vazamento no Salão Verde da Câmara dos Deputados encontrou mensagens de operários que construíram Brasília. 6 mensagens foram escritas naquelas paredes vedadas em 1959. Os operários registraram suas esperanças, falado do amor e de seus sentimentos de justiça. Uma das mensagens, assinada por José Silva Guerra, diz: “Que os homens de amanhã que aqui vierem trabalhar tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”.

Estes homens que construíram Brasília eram, quase todos, nordestinos. As condições em que trabalhavam eram as piores possíveis. Não tinham direitos trabalhistas, sequer descanso semanal. Há massacres na história não contada da construção de Brasília – um deles, por reclamações dos trabalhadores por conta da comida. Quem se instalava no Plano Piloto era simplesmente enxotado. Ceilândia, uma das cidades satélites, tem seu nome derivado da famigerada Comissão de Erradicação das Invasões (CEI) montada pelo governo Juscelino. Ninguém sabe quanto custou Brasília. As empreiteiras recebiam diretamente da Casa da Moeda. Algumas das grandes fortunas do Brasil foram construídas ali, à base de corrupção e favorecimentos oficiais. A história registra o nome de Juscelino como o “construtor de Brasília” e lembramos sempre de Lúcio Costa e Niemeyer que a projetaram. Mas não sabemos das histórias daqueles homens que ergueram a cidade no meio do lugar nenhum e que esperavam dos políticos “compaixão por seus filhos” e “respeito à lei”.

Os nordestinos já haviam colonizado a Amazônia, até o Acre, enganados pela propaganda getulista que recrutou os “soldados da borracha”, oferecendo-lhes futuro luminoso. Na selva, encontraram pouco mais que a malária e o trabalho escravo. Depois, quando o capitalismo brasileiro se fundiu com as montadoras de automóveis, foram os nordestinos que migraram em massa para São Paulo em paus de arara. Sem eles, a São Paulo moderna não existiria, tampouco a riqueza dos barões da indústria. Mas São Paulo ergueu monumentos aos Bandeirantes, não aos nordestinos. Preferiu homenagear os capitães do mato e os assassinos a soldo das elites, ao invés dos seus trabalhadores.  Por sobre tudo isso, resta o silêncio.

No interior daquele fosso no teto do Salão Verde, retumbam as vozes daqueles que nunca são ouvidos. No interior daquele fosso, vencendo a invisibilidade e o mutismo impostos impiedosamente aos pobres, há poesia e generosidade e um mundo inteiro a desafiar o Brasil.

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