UM PROGRAMA PARA A SEGURANÇA

Normalmente, a atenção oferecida pelos veículos de comunicação aos temas da segurança pública segue a máxima “if it bleeds, it leads” (“se sangra, dá manchete”). Pouco se estuda, entretanto, a forma como a imprensa brasileira divulga crime e violência. Neste contexto, a pesquisa de Silvia Ramos e Anabela Paiva (CESEC-Cândido Mendes), “Mídia e Violência: Como os Jornais Retratam a Violência e a Segurança Pública no Brasil” (relatório preliminar disponível em: http://www.ucamcesec.com.br/at_proj_conc_texto.php?cod_proj=215 ), adquire maior relevância.

O trabalho analisou 2.514 matérias produzidas por 9 dos principais jornais brasileiros (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Agora SP, O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, O Estado de Minas, Diário da Tarde e Hoje em Dia) encontrando, entre muitas outras características, que 99.1% das notícias sobre crimes oferecem uma perspectiva individualizada sobre os fatos, sem contextualizá-los de qualquer maneira. Não há sequer pista sobre a classe social das vítimas em 85% das matérias e, em 95%, sobre os autores; apenas 1,4% das matérias da amostra tiveram como foco central estatísticas, pesquisas ou divulgação de dados. A pesquisa mostrou que as polícias seguem sendo, para a mídia, a principal fonte de informação sobre segurança e violência; especialistas e entidades da sociedade civil correspondem a menos de 5% das fontes ouvidas pelos jornais avaliados, o que, por si só, já condiciona largamente os enfoques oferecidos. Do conjunto das matérias, apenas 10,5% delas apresentam opiniões divergentes sobre os temas tratados. Assim, além da ausência de contextualização dos fenômenos, o que significa produção jornalística pobre e superficial, temos uma baixíssima diversidade temática e a produção de uma espécie de “discurso único” sobre o tema.

A mídia pode, entretanto, cumprir um papel completamente diferente e oferecer uma extraordinária contribuição ao tema da segurança pública. Aqui no RS – apenas para ilustrar o que pretendo dizer – seria possível, por exemplo, se perguntar ao Deputado Ênio Bacci qual é seu diagnóstico sobre o crime e a violência no estado e qual é o Programa de Segurança que orientará suas ações e quando este diagnóstico e este programa estarão disponíveis no site da Secretaria. Sim, porque não há política de segurança séria sem diagnóstico competente, nem iniciativa na área que mereça ser respeitada fora de uma racionalidade programática amplamente divulgada e acessível por qualquer cidadão.

No maior centro britânico de formação policial (Central Police Training Development Authority), em Bramashill, um de seus diretores me disse que os governos só podem alcançar resultados em segurança depois de concluírem que  “we have had enought playing to the gallery” (algo como: “já jogamos muito para a torcida”). Penso que ainda não chegamos a esta conclusão no Brasil e, por isso, o processo de tomada de decisões na área da segurança segue permitindo generosos espaços para demagogos e aventureiros.

Mais uma razão para insistir nas boas perguntas. Caso contrário, iremos repetir o que ocorre por estas bandas, onde os governos não possuem programa para a área e onde os gestores são mais lembrados pelas frases que produzem do que pelos resultados que alcançam.

Posts relacionados