VARIAÇÕES SOBRE BACH

Nicht Bach – Meer sollte er heissen

Beethoven

Lembro-me do perfil grave e quase mágico de meu avô materno, Léo Schneider, deslizando suas mãos de vento por sobre os teclados do órgão de tubos de uma Igreja em Porto Alegre. Lembro-me de seus pés inexplicáveis pressionando os pedais exatos e do impacto – algo assim como uma energia que atravessasse as artérias e me fizesse abstrair de tudo para além dos acordes – quando ouvi, pela primeira vez, Tocata e Fuga de Bach. Até hoje, nada em música me parece tão arrebatador quanto aquela peça. De fato, ocorre com Bach a experiência única do contato com uma obra que parece transcender o que concebemos como humano. Parece incrível que toda essa capacidade criadora tenha estado sepultada por quase cem anos após a sua morte. Devemos a Mendelssohn – na época com apenas 20 anos – o mérito maior pelo resgate e divulgação da obra de Bach o que só ocorreu na primeira metade do século XIX. A Paixão Segundo São Mateus só foi impressa e tornada conhecida em 1828. Bach, apenas para lembrar, morreu em 1750.

Durante toda sua vida, Johann Sebastian Bach, viu-se obrigado a lidar com autoridades políticas mesquinhas, com líderes religiosos intolerantes e com músicos medíocres. Embora tivesse obtido o respeito de seus pares e mesmo de alguns “déspotas esclarecidos” nunca foi visto em sua época como mais do que um músico virtuoso, um regente rigoroso ou uma autoridade como organista. Quando Goethe afirmou que quando ouvia a música de Bach era como se “a eterna harmonia se perguntasse o que teria ocorrido no seio de Deus pouco antes da criação do mundo” e que, diante daquela música, ele tinha a sensação de não precisar mais de ouvidos, de olhos ou de qualquer outro sentido, estava expressando um reconhecimento que Bach nunca obteve em vida. De lá para cá, todos os grandes músicos reverenciam Bach e afirmam que sua obra é a síntese de tudo o que havia sido feito antes e o começo de tudo o que se fez depois. A frase de Beethoven que escolhi como epígrafe, por exemplo, faz um trocadilho com a palavra “bach” que, em alemão, significa “riacho”. Uma tradução literal seria, então: “Seu nome não deveria ser riacho, mas mar”.

A Companhia das Letras acaba de editar uma bela obra sobre a vida e a música de Bach: “48 variações sobre Bach”, de Franz Rueb. Nela, pode-se aprender um pouco sobre a arte e as circunstâncias desse músico insuperável. Para mim, por exemplo, foi surpreendente saber que Bach teve 20 filhos em seus dois casamentos; 10 dos quais morreram ainda crianças. A experiência da morte, aliás, parece acompanhar sua vida como uma sombra. Bach ficou órfão de pai e mãe aos dez anos. Talvez por isso, os sentimentos que sua música evoca sejam tão fortes. Rainer Maria Rilke costumava dizer que quando ouvia certos corais de Bach formavam-se a sua frente “verdadeiras montanhas de dor”.

Seja como for, ouvir Bach é saber de uma experiência tão grandiosa quanto misteriosa, coisa que a regressão do ouvido moderno produzida pela indústria cultural -muito mais do que os impedimentos de ordem econômica e social – está tornando, para muitos, uma alternativa inacessível.

Posts relacionados