VIDA DE CÃO

Maria Estela dos Santos tinha 15 anos e levava uma vida de cão. Morava com a mãe, o padrasto e seus oito irmãos em um barraco alugado no Pedregal, uma das regiões mais miseráveis de Goiás, fronteira com o Distrito Federal. Sem emprego e sem dinheiro para pagar o aluguel, sua mãe tomou a decisão de ocupar um espaço de área verde na quadra 207 norte de Brasília onde montaram uma tenda coberta de plástico. Outros parentes foram junto totalizando 15 pessoas. Para não morrerem de fome, todos se uniram e viraram catadores de lixo. Eles faziam uma única refeição diária, por volta das 17 horas, na base de arroz, feijão, chuchu e cenoura recolhidos junto ao lixo do comércio. Maria Estela era uma menina frágil, mas muito alegre. Gostava de jogar vôlei, de contar histórias e de cantar. Na tarde do dia 19 de outubro, os acampados da 207 Norte preparavam-se para comer quando começou a chover. Um raio os atingiu. Todos desmaiaram e, algum tempo depois, voltaram a si. Maria Estela foi a única que não despertou. Desesperada com a morte da filha, sua mãe só conseguia dizer: “Que dor meu Deus. Tire esta dor do meu coração!”

Vera Loyola, socialite dita “emergente” da Barra da Tijuca no Rio, não queria que chovesse neste mesmo dia. Fez até promessa para Santa Clara. Vera, entretanto, não tem qualquer motivo para se preocupar com raios. Suas preocupações eram de outra natureza. Acontece que em 19 de outubro ela iria comemorar o aniversário de sua cachorra, uma ilustre representante da raça thin, que atende pelo nome de “pepezinha”. A chuva poderia estragar tudo. Entre samovares russos e vasos Ming, Vera Loyola organizou a recepção aos seus convidados humanos e animais. Ao todo, foram 32 animais irracionais e 70 animais racionais presentes na festa. Pepezinha recebeu muitos presentes. Até uma corrente de ouro ela ganhou. Pepezinha, que completava 12 anos, vive uma vida que poucos humanos têm. Ela e seus convidados caninos não costumam pisar no chão. Vivem no colo das suas donas, descansam sobre almofadas de seda e se deslocam sobre tapetes persas. Para que possam manter seu pelo em boas condições, tomam banhos em clínicas especializadas, são tratados com xampu, creme rinse e aplicações diárias de hidratante. Suas refeições são balanceadas em rações com vitaminas e sais minerais. Vera Loyola ama Pepezinha de verdade e a chama de “minha filhota”. Não se sabe ao certo se a adotada retribui tamanha afeição.

Tudo isto que você leu até agora nesta crônica foi extraído da edição de 20 de outubro do jornal Correio Brasiliense que ofereceu capa aos dois assuntos: a vida de cão de Maria Estela e a vida da cachorra da Vera Loyola. Cerca de 400 mil famílias no Brasil, pouco mais de 1,5 milhões de pessoas ou 1% da população, possuem 17% da renda nacional e 53% do estoque líquido da riqueza privada do país. Só para comparar, nos EUA -que não são propriamente um exemplo de distribuição de riqueza – os 1% mais ricos controlam 8% da renda e 26% do estoque líquido de riqueza. Dados estatísticos, entretanto, não nos oferecem uma visão real sobre o maior escândalo brasileiro. Para saber o que significa a vergonha da concentração de renda em nosso país, é preciso contrastar os destinos das Marias Estelas e Pepezinhas e perguntar que sociedade é esta onde um cachorro vale mais que uma criança.

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