Voando no escuro

Os gestores na área da Segurança no Brasil costumam concordar com ideia de que é importante adquirir carros velozes para as polícias. No RS, recentemente, este foi um aspecto valorizado na compra de 192 Toyotas Corolla para a Brigada Militar, ao custo de 100 mil reais cada (investimento de 25 milhões). A opção deveria ter despertado a curiosidade pública tendo em conta, pelo menos, o contraste com as opções feitas por outros estados e por outros países.

É comum que os pronunciamentos das autoridades sejam rapidamente destacados pelo jornalismo declaratório que por aqui se pratica (“jornalismo declaratório” é a expressão usada para um tipo de cobertura que nada cobre nem pergunta. Uma conduta que cumpre a relevante missão de encobrir os problemas reais, entre eles a incompetência dos governantes). Muitos profissionais de imprensa, que deveriam, por responsabilidade profissional, perguntar e duvidar sempre (além de estudar o seu tema) não o fazem, o que não impede que possuam uma infinidade de respostas. Aliás, quanto menor a disposição de perguntar e de estudar, maior parece ser a certeza das pessoas – não só entre os jornalistas. Não importa o quanto o tema seja complexo e o quanto se acumulou de conhecimentos no mundo sobre ele, haverá sempre um grupo de comentaristas disposto a tratá-lo com uma receita de três ingredientes e um ponto de exclamação. Do outro lado, está o público, sedento por informação, a quem se costuma oferecer um deserto de preconceitos, simplificações e verdades nunca questionadas.

Na contramão dessa tendência, retomo o tema dos “carros velozes para a polícia”, que tratei, entre outros, em “A Síndrome da Rainha Vermelha, policiamento e segurança pública no século XXI” (Zahar, 2006)”. Os gestores na área da Segurança no Brasil costumam concordar com ideia de que é importante adquirir carros velozes para as polícias. No RS, recentemente, este foi um aspecto valorizado na compra de 192 Toyotas Corolla para a Brigada Militar, ao custo de 100 mil reais cada (investimento de 25 milhões). A opção deveria ter despertado a curiosidade pública tendo em conta, pelo menos, o contraste com as opções feitas por outros estados e por outros países. A experiência internacional é muito variada, mas vale a pena prestar atenção ao que fazem as melhores polícias do mundo. As 52 polícias da Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, por exemplo, preferem carros Corsa e Fiesta. Por que razão não lhes ocorreu terem carros mais confortáveis e velozes? Um dos motivos, decorre do modelo de policiamento que eles construíram com base em evidências.  Nesses países, se pratica o policiamento comunitário, o que significa que as viaturas cobrem áreas menores e que os policiais passam a maior parte do tempo a pé, em contato com os residentes, desconectados do sistema centralizado de emergência.

A velocidade, se disse por aqui, permitiria que o tempo de resposta às chamadas ao 190 fosse reduzido e que, em eventuais perseguições a suspeitos, os policiais tivessem melhores condições de prendê-los. Será?  As evidências colhidas em vários países mostram, primeiro, que patrulhas motorizadas não são eficientes como estratégia de policiamento. Mais de seis mil horas de observações noturnas, em cruzamentos com altas taxas de criminalidade, em Minneapolis (EUA), por exemplo, mostraram que a frequência dos carros de patrulha passando pelos locais era de um veículo a cada 23 horas [i] Sabe-se, em síntese, que a circulação aleatória de carros de polícia pelas ruas não produz resultado palpável quanto à incidência criminal e tampouco reduz o medo da população.

O tempo de resposta às chamadas feitas para a polícia, por seu turno, só faz diferença nos casos de crimes em andamento, circunstância que é bastante incomum.  Desde o estudo clássico realizado nos anos 70, pela Polícia de Kansas City (acesse aqui:https://goo.gl/zkrgLN), vários trabalhos têm demonstrado que grande parte das chamadas à polícia refere-se a crimes que ocorreram há várias horas e onde não faria qualquer diferença a Polícia ter chegado mais rápido [ii]. Outros crimes onde pessoas foram vitimadas por agressões ou em assaltos, por exemplo, costumam ser comunicados à polícia vários minutos depois de terem ocorrido.

O que as pesquisas evidenciam é que não existe qualquer relação entre o tempo transcorrido para o atendimento de uma chamada e a possibilidade de prisão sempre que tiver transcorrido mais do que nove minutos desde o cometimento do crime. A partir desse lapso temporal, as chances de prisão em flagrante podem ser desconsideradas para efeito estatístico e o tempo de resposta só importa para a maior facilidade de contato com eventuais testemunhas e para um recolhimento mais seguro de evidências. No estudo de Kansas City, se demonstrou que, um minuto após a ocorrência do crime, as chances de prisão imediata já são inferiores a 10% [iii].  As pesquisas em diferentes países convergem para um mesmo tipo de expectativa das vítimas que, a princípio, não contam com uma resposta rápida e imediata da polícia. O que as vítimas esperam é que a polícia lhes ofereça uma ajuda significativa, o que aponta para a qualidade da resposta e não para o tempo em que ela será dada [iv].

Quanto às perseguições de suspeitos, as condições de trânsito nas grandes cidades brasileiras já seriam suficientes para que não se atribuísse importância a variável velocidade dos carros. Sabe-se que viaturas em alta velocidade na zona urbana expõe transeuntes e os próprios policiais a sérios riscos.  Não por acaso, as polícias modernas possuem regras muito restritivas para deslocamentos de viaturas policiais acima da velocidade da via (veja, por exemplo, as normas da polícia de Worcester aqui: https://goo.gl/iq6uBK). Já um sistema de comunicação de ponta para os policiais é o que pode fazer diferença em casos de perseguição e cerco a suspeitos, mas os governos não oferecem aos policiais nada que se aproxime disso e as viaturas velozes e caras compradas não contam com tecnologia embarcada que ofereça aos seus ocupantes recursos elementares de inteligência (muitas vezes, elas sequer são adaptadas para que seja possível transportar com segurança um suspeito detido). Os gestores tampouco podem monitorar em tempo real onde estão as viaturas, onde efetuaram paradas, onde patrulharam efetivamente. Também não contam com mapas georefenciados de hot spots (“pontos quentes”, onde ocorrem a maioria dos delitos) em cada cidade que lhes permitam um critério objetivo para alocar o patrulhamento onde ele pode produzir diferença real.

Seguimos, então, sem rumo ou procedimento certo, totalmente no escuro, mas com mais velocidade.

[i]  SHERMAN, Lawrence and WEISBURD, David. General deterrent effects of police patrol in crime “hot spots”: A randomized, controlled trial. Justice Quarterly, 12:4, 625-648, 1995.

[ii] SPELMAN, William e BROWN, Dale. Calling the Police: Citizen Reporting of Serious Crime. Washington, DC, U.S .Government Printing Office, 1984.

[iii] BIECK, William e KESSLER, David A. Response Time Analysis, Kansas City, Mo, Board of Police Commissioners, 1977.

[iv] MacEWEN, J. T.; CONNORS, E.F. and COHEN, M.I. Evaluation of the Differential Police Response Field Test. Alexandria, Va; Research Management Associates, 1984.

 

Marcos Rolim – Sul 21.

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